BANHO-MARIA

 

Adiado em oito meses pela Warner por conta do estrondoso sucesso financeiro de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” ano passado, o sexto filme do jovem bruxo criado pela escritora inglesa J. K. Rowling chega aos cinemas cercado das mais altas expectativas dos fãs e daqueles que apenas acompanham a série. Ao pé da letra, “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, novamente dirigido por David Yates, segue conduzindo Hogwarts para a escuridão, deixando de lado o colorido dos primeiros filmes em prol do desolador cinzento da proximidade do confronto derradeiro (quem sabe) entre Potter e Voldemort. Yates usa toda a sua bagagem para criar um tom urgente e sombrio, dando maior ênfase aos ótimos antagonistas Severo Snape e Draco Malfoy, o destaque desta produção. Além disso, confere credibilidade à sensação de perigo a espreitar os cantos escuros e os portões da famosa escola de bruxaria.

Cujo diretor, professor Alvo Dumbledore, ganha também mais destaque – não por acaso, como saberemos no desfecho do filme –, usando o personagem-título para descobrir um grande segredo de Você-Sabe-Quem. Sem conseguir escapar das amarrações de uma narrativa episódica, “O Enigma do Príncipe” repete as mesmas informações repassadas pelos filmes anteriores, acrescentando novas para, mais uma vez, deixar a sensação de estar jogando os verdadeiros desenlaces para o capítulo final. Este, talvez, seja dividido em duas partes, apenas para provavelmente a primeira parte final jogar tudo para a parte final final, e com isso levar junto mais um bom par de anos de nossas vidas. Na primeira década deste novo século, o nome Harry Potter está tatuado de uma ponta a outra. Pesquisas sobre personagens famosos sempre citam a cria de Rowling como a dominante desta geração.

Tal observação clareia a análise de franquia a médio e longo prazo. Séries grandes, “Star Wars”, os filmes de James Bond, da Pantera Cor-de-Rosa (com Peter Sellers), Harry Potter e agora a saga romântico-vampiresca iniciada com o bobo “Crepúsculo”, reforçam a ideia de que esses filmes deixam de ser exclusivamente criações artísticas para assumirem contornos de produtos industrializados à prova de críticas. Sendo bons, medianos ou ruins, eles sempre serão lidos e vistos por milhões de pessoas, independentes da malhação ou não em cima deles. Depois de serem cristalizados como parte da cultura contemporânea, acionam o piloto automático criativo e vão rumo à glória. Mantendo sempre a mesma estrutura de sucesso, passam por cima de crises financeiras e depressões individuais, acelerando o nosso próprio envelhecimento sem nos darmos conta disso e se tornando prisões para os seus criadores.

Acerca disso, a própria Rowling admitiu ter pensando em quebrar o braço para não poder escrever (como se ela não pudesse ditar, como fazia Sidney Sheldon), enquanto Daniel Radcliffe, intérprete de Potter, acredita no fim da saga como sua libertação. Só se for mesmo a “libertação” de algo a acompanhá-lo, segui-lo pelo resto da vida. Após dar-se nome aos bois e rostos a sentimentos, o caminho não tem retorno. É uma linha reta e seca em direção ao distanciamento do passado, tarefa difícil e penosa. Fácil mesmo é estar preso à própria acomodação de acompanhar, sem sair da poltrona, grandes jornadas de figuras de mentira (ora significativas, ora sem muito conteúdo autêntico) ao longo dos anos. A saga “Harry Potter” é como um namoro levado no banho-maria: vai tentando agradar empurrando com a barriga, conduzindo os fãs, apaixonados, a cada vez mais perto do inexorável fim.


 

 

 

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