SOM E FÚRIA

 

“Transformers: A Vingança dos Derrotados”, em cartaz na cidade desde o dia 23, trata-se um dos piores exemplares de enlatados cinematográficos norte-americanos aportados por aqui neste primeiro semestre do ano. Certamente outros virão, contudo a continuação do sucesso de 2007, divertido por seu charme retrô de matinê e por não se levar a sério, amplia tanto as particularidades da fonte que cai em sua própria armadilha: de almejar fervorosamente o escapismo da década oitentista com a pirotecnia deste início de século, acaba resultando numa sessão comprida e absolutamente boba, e, ao invés de não se levar a sério, parte do pressuposto de que é o espectador que não deve ser levado.

Novamente dirigido por Michael Bay, assessorado por Steven Spielberg, o fiapo de roteiro demora a engrenar, esticando ao máximo as sequências de ação para ludibriar o público quanto à falta de criatividade do enredo, o qual força das maneiras mais absurdas a presença de todos os que participaram do filme anterior. Apela para a comédia mais infantil e não raramente nosense para mostrar Sam (Shia LaBeouf) indo para a faculdade, enquanto os Autobots (os robôs do bem) se associaram aos humanos para caçar os Deceptions (os robôs do mal) remanescentes da vitória sobre Megatron, contido no fundo do oceano – não por muito tempo. Sinceramente, a história não importa muito aqui. Rasa como um pires, serve apenas de desculpa para Michael Bay sair do ponto de vista dos humanos e erguer sua câmera para o ponto de vista dos robôs, o que muda muita coisa. Aliás, tudo.

De cima, os habitantes da Terra são burros como uma porta e não oferecem nenhuma dificuldade para Fallen, o grande vilão da vez, articular e executar sua vingança contra os Autobots. De baixo, o roteiro, dos mesmos nomes por trás do novo “Star Trek”, não deixa espaço para os conflitos humanos, resumidos a quem, no casal Sam e Mikaela, conseguirá declarar seu amor primeiro. Cada movimento da história é de uma obviedade frustrante, espaçadas ora pela ação desenfreada que só Bay consegue estragar ora pelos devaneios cômicos saídos da mais boba comédia adolescente-vaudeville, se cabe o termo. O ato final é uma loucura de efeitos especiais e caos de batalha. Som e fúria geradores de lucros, sem dúvida nenhuma. Ainda assim, o embate final entre Optimus Prime e Fallen não satisfaz diante do que poderia ter sido. Levar a briga para o deserto do Egito não foi das melhores escolhas. Os gigantes se apequenam diante das pirâmides e dos espaços e terminam revelando o que são de fato: bonecos articulados sob medida para satisfazer a garotada.

Garotada hoje crescida e atraída para não deixa passar em branco as formas e o charme da alardeada substituta de Angelina Jolie, a estonteante Megan Fox, intérprete da personagem Mikaela. O novo sonho de consumo de onze entre cada dez marmanjos (e, por que não dizer, das meninas, afinal a moça já assumiu sua bissexualidade, deixando o caminho aberto para todos) vira mero objeto sexual nas mãos de Michael Bay, que faz da primeira aparição dela um pôster típico de revista masculina – e duvido muito que alguém consiga tirar da cabeça o plano dela de shortinho debruçada sobre uma moto durante todo o resto do filme. Mas isso é mero (e até um bom) detalhe diante da chatice que é este “Transformers: A Vingança dos Derrotados”, que ainda conta com atuações ridículas de pessoas frequentemente boas, robôs-gêmeos mais irritantes do que Chris Rock, a câmera impregnada dos vícios narrativos do diretor e até mesmo uma sugestão de fraqueza por parte do governo dos EUA diante das exigências terroristas. Com tanta comicidade em cena, o próprio filme vira um grande alívio cômico. O problema é que a piada é longa demais.

Artigo publicado no jornal O Dia em 30.06.09

 

O REFLEXO DA CRISE


Em “Intrigas de Estado”, filme em cartaz no Teresina Shopping, o jornalista interpretado por Russell Crowe ajuda o amigo congressista vivido por Ben Affleck a limpar a imagem após este ter um ataque de pânico, por conta da morte de sua assistente, durante a audiência de um processo contra uma gigantesca companhia de segurança. Imediatamente, todos os meios de comunicação especulam o caso amoroso entre os dois e o suposto suicídio da moça. Contudo, como o espectador é levado a saber antes dos quinze minutos de projeção, trata-se de um assassinato em meio a uma conspiração corporativista. Ou quem sabe não.

O thriller dirigido por Kevin Macdonald (“O Último Rei da Escócia”) toma emprestada a trama de uma minissérie inglesa de 2003 para discutir como pano de fundo a crise pela qual passa o jornalismo impresso. Logo no início do filme, tem-se um interessante embate entre a internet e a velha mídia. A velocidade da notícia chegou a tal ponto que, no afã por um artigo quente, no sentido de sair na frente, acaba-se noticiando o superficial, a especulação, em detrimento da verdade. Os sites e blogs são tão ávidos por publicar a notícia no mesmo instante em que ela acontece que se atêm ao básico e terminam por vezes cometendo o erro da parcialidade. Toda história tem dois lados. Às vezes mais.

Assim como aprendemos em filmes como “Todos os Homens do Presidente”, dirigido por Alan J. Pakula em 1976, supervalorização do jornalismo investigativo. É preciso checar a história, ter fontes consistentes, anônimas ou não, antes de publicá-la. “Intrigas de Estado” retoma um pouco desse espírito, porém mostra o quanto o jornalismo mudou nos últimos trinta anos. Se no filme de Pakula o editor luta por seus repórteres e deixa-os seguir o velho e bom faro jornalístico, a editora feita por Helen Mirren aqui defende os donos do jornal, os publicitários, os que são os grandes responsáveis por mantê-lo em circulação. A crise do jornal impresso é tão séria que tudo vira notícia, até mesmo a equivocação da mesma. O que importa e garante retorno financeiro é ter o scoop, o furo, a notícia em exclusividade, não importando se ela não for cem por cento verdadeira.

O que nos leva a um outro filme chamado “O Preço de uma Verdade”, dirigido por Billy Ray, que não à toa é um dos que assinam o roteiro deste “Intrigas de Estado”. O personagem feito por Hayden Christensen forja suas matérias, que são passadas adiante sem ninguém checá-las. Ética jornalística é assunto caro, e a falta de filtro do jornalismo comercial vigente periga uma nova conformação desse conceito. Obviamente são projeções da própria parcialidade da trama do filme de Macdonald, que termina resultando na pauta: velha mídia mostra à nova como é que se faz. Uma personagem fala algo do tipo “há coisas que os leitores merecem ler em mãos”. Tentativa de contornar a crise e mostrar que o jornal impresso ainda possui um caráter muito particular.

Romantizado no desfecho do filme, depois que todas as reviravoltas já moldaram outros subtextos, aderindo aos implausíveis (coisas de Hollywood), a batalha pela publicação do artigo correto, contando a verdade dos fatos, o jornalismo utópico do cinema. Difícil, para quem é jornalista ou estudante de comunicação social, não ganhar certo gás passageiro, até mesmo se emocionar e esquecer todos os tropeços da obra. Agora que teremos todos que lidar com a não-obrigatoriedade do diploma, o que certamente fará eco no mercado de trabalho e forçará uma reestruturação do curso acadêmico, o percurso que o artigo faz da tela do computador, passando pela diagramação e pela rotativa, até ser impresso como parte do jornal resulta no melhor momento de “Intrigas de Estado”. Pena que aconteça durante os créditos finais.


Publicado no jornal O Dia em 23.06.09

O CORAÇÃO DA MÁQUINA

 

O futuro nunca foi bem visto pelo cinema. Sempre se anunciou que a máquina dominaria o homem e que quando isso acontecesse teríamos que lidar com robôs autoconscientes, extraterrestres reivindicando direitos como se pagassem impostos e os clones de nossa própria espécie querendo driblar a burocracia. Após o colapso provocado por nossa própria indulgência, não haverá mais tempo para os conflitos de diferença. Vamos precisar nos unir em prol da continuidade humana na Terra. A inquisição, o massacre dos índios e o holocausto serão notas de rodapé. No futuro, para que todos possam se unir e viver como um, é preciso uma ameaça maior e as divergências do passado apagadas. Ao menos, é assim que o cinema prevê o que está por vir.

O que nos leva ao ano 2018, quando a trama de “Exterminador do Futuro: A Salvação” acontece. A guerra dos homens contra as máquinas da Skynet está a pleno vapor. John Connor é o líder da Resistência. Ainda segue as orientações da mãe por meio de fitas de áudio deixadas por ela. Está prestes a ser pai e a conhecer o adolescente que será seu pai quando este voltar a 1984, ano do primeiro filme. Até aí tudo bem. Quem conhece a série iniciada por James Cameron se situa nas linhas acima sem maiores problemas. Porém, contrariando qualquer expectativa, Connor não soa como protagonista da história, o roteiro é fiel aos anteriores, mas não vai além por pura estratégia mercadológica, e as questões abordadas são superficiais demais para aumentar qualquer interesse pelo filme.

Ao invés de ser um líder carismático, John Connor é ranzinza, tem a cara amarrada e mal consegue gritar (e só vive gritando). É um líder monárquico, digamos assim. Foi Sarah, sua mãe, quem primeiro revelou o Julgamento Final e como seriam as coisas depois dele. Ela disse que o filho seria o porta-voz da Resistência, ninguém ousou questionar e, como numa sucessão monárquica, ele sentou no trono. Um roteiro inteligente usaria isso como questionamento, faria Connor sentir o peso de ser o novo Messias e enriqueceria a obra. Não apenas teria um primeiro ato caótico, jogando o espectador no centro da batalha a fim de que o diretor McG usasse planos longos e elaborados para mostrar que sabe usar a câmera e o falso protagonista sendo o único a sobreviver por fugir e deixar os companheiros para trás.

Falso protagonista, pois é o personagem Marcus Wright que termina movendo “A Salvação”. Graças ao seu intérprete, Sam Worthington, Marcus é a figura mais interessante da produção, embora isso não queira dizer que seja um grande personagem. O fato é que Christian Bale está apagado e seu Connor afunda junto. Aqui, o cavaleiro das trevas monta outra moto preta e parte para a ação, sem saber que é a ação que o engole sem dó nem piedade. A pirotecnia do filme recai em exageros estéticos bebidos na mesma fonte de um “Transformers” desses da vida. O espetáculo visual para ludibriar o grande público dos problemas do roteiro é tão contínuo que dá sono. Ritmo frenético de efeitos especiais desconcentra a atenção da história, o vinho suave da adega de Hollywood para pegar-nos desprevenidos quando o álcool já tiver tomado de conta.

Bêbados pelo barulho infernal que faz de um simples acender de fogo um motivo para pegar um susto, e que no contexto atual tem tudo para ser lembrado nos prêmios da Academia ano que vem, até vibramos com as referências aos filmes anteriores, de “Venha comigo se quiser viver” a “You Could Be Mine” do Guns N’Roses, sem percebemos que a sedução mercadológica impediu um desfecho impactante e que poderia fazer elo direto com o primeiro filme – e a aparição de um T-800 engana direitinho, até a espinha gela. Bobos que somos e fáceis de enganar por um truque de mágica mais elaborado, não vemos que a força motriz deste “Exterminador do Futuro: A Salvação” está naquilo o que nos separa das máquinas: o coração. E é um jogo interessante, porém nenhum pouco original: enquanto o coração dos homens está embrutecido, o da máquina em crise de identidade é frágil e benevolente. Volta-se ao otimismo de Cameron em “Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final”, contudo termina soando mais artificial do que nunca. Um desfecho fraco, apenas para prometer outra seqüência. Como adoramos um bom truque de mágica, mal podemos esperar para pagar para ver.

 

Publicado no jornal O Dia em 09.06.09

ONDE OS ANJOS APONTAM

 

Está cada vez mais óbvio nos dias atuais o fato de que existem pessoas que gostam de ser apontadas na cara e chamadas de burras. Gostam tanto que pagam para isso. Escutam canções pops e se impressionam com a batida e as rimas fáceis. Compram best sellers vazios e discutem autores contemporâneos de forma intelectualizada. Lêem quadrinhos adultos como se fosse literatura clássica. Vão ao cinema e encaram filas quilométricas para assistirem à primeira sessão de suas adaptações, sempre rodeadas por alardes e falsas expectativas. Adoram a fidelidade do texto, as grandes sequências, os efeitos especiais, o ritmo da direção, as reviravoltas do roteiro, a interpretação dos atores, o modo brilhante como a trama se conclui e as duas horas, ou mais, que se passaram sem sofrimento algum. E elas estão certas, afinal pagaram para isso.

O preocupante é que, nesses tempos de conversas rápidas e terabytes tresloucados, as pessoas esquecem o que estão fazendo. Estão consumindo informações sem processá-las. Porque precisam ler o próximo livro, ver o próximo filme, comprar a versão de luxo de “Watchmen”. Não discutem o subtexto das obras que engolem. Às vezes nem vêem esse subtexto, seja porque não está lá ou pelo fato de que descobrir os meandros do autor é tirar a melhor coisa proporcionada pela obra: a alienação de si mesmo. Foi-se o tempo no qual o cinema se beneficiava das grandes narrativas literárias. É a literatura que, já há algumas décadas, encontra-se influenciada pelo cinema. Se antes o espírito humano era milimetricamente estudado nas divagações de autores sem pressa – que se prestavam a seguir o fluxo do pensamento –, hoje a sutileza é a técnica, e as intenções dos personagens estão escondidas em suas ações, em seus olhares, nas vírgulas e reticências. Ou seja, cinema puro.

Na contemporaneidade, o padrão literário é raso e se limita a sequências de eventos comentados pelo escritor, que se beneficia de estar sempre um passo à frente do leitor. Consequentemente são livros em formato cinematográfico e se transformam em filmes com poucas dificuldades. O autor deveria ser creditado também como roteirista, pois a moda das adaptações fiéis deixa pouco espaço para uma interpretação do que está sendo adaptado. Pura preguiça intelectual. Por isso Dan Brown e suas páginas de diálogos espertos e seus parágrafos narrativo-descritivos é quase leitura acadêmica: na era da imagem se movimentando, precisamos ver o que estamos lendo. É provável que todos conheçam a história de “Anjos e Demônios”, nova realização fílmica de uma narrativa de Dan Brown. Se não, ao menos sabem que tem alguma coisa a ver com uma bomba no Vaticano e a igreja católica preocupada com sua imagem retratada pelo livro-filme.

Preocupação à toa. Esta nova desventura do simbologista Robert Langdon não provoca nenhum novo arranhão na pele já cheia de feridas do catolicismo. Não é nada comparado às visitas do Papa à África do Sul vendo todo um povo morrer de AIDS e ainda condenando o uso da camisinha nas relações sexuais. Abençoados sejam os católicos desobedientes. Aliás, não há filme mais católico do que “Anjos e Demônios”, que mostra o quanto o ser humano é contraditório e impregnado pela imagem que faz de si mesmo. Assim como é a igreja católica. Sempre foi. Existe algum motivo para drama agora? Claro que não. É bem capaz que o filme dirigido por um Ron Howard em stand-by (quem pôde ver “Frost/Nixon”, também dele e o melhor dos indicados ao último Oscar, deve concordar) aumente consideravelmente o número de católicos, pois sua magnífica recriação do Vaticano – sim, a produção foi proibida de pôr os pés sujos lá – certamente levará mais turistas até a cidade-estado, dando ao Papa a oportunidade de ser esperto e jogar suas sementes de catequização. 

Quanto ao filme, não passa de um suspense meia-boca, no qual o Langdon de Tom Hanks apenas segue as indicações do roteiro formulaico, demorando a acertar aquilo no qual deveria ser expert (a leitura dos símbolos) e quase sempre chegando tarde demais ao salvamento das vítimas. Em certos momentos, Langdon parece mais burro que a platéia, que pelo menos ri dos seus insights atrasados. A inteligência da trama se esvai a partir do final dos comentários históricos estilo quem foi quem ou quem fez o quê, e Hanks tenta, mas não consegue evitar um tom didático. Chega-se ao cúmulo de criar tensão pela falta de oxigênio para a situação ser resolvida da formal mais boba e risível possível. Os velhos clichês hollywoodianos ainda hoje impregnam suas produções. Mesmo Vittoria Vetra sendo mais interessante do que a insossa Sophie Neveu de “O Código Da Vinci”, ela pouco tem a resolver na história e talvez não fizesse falta. O personagem de Ewan McGregor é outro problema. Não por ser ruim ator, pelo contrário. O fato é a cartilha do gênero suspense: sendo feito por ele, seu personagem termina entregando a única reviravolta da história. Por sua vez, também comum ao gênero e estupidamente óbvia.

Tendo sido todos muito bem pagos para fazer esse filme (os maiores cachês já pagos, ao que parece), não é de se espantar que seja tecnicamente bonito, embora já comecem chamando o espectador de burro ao decidirem inverter a sequência da história: na literatura, “Anjos e Demônios” retrata um evento anterior ao de “O Código Da Vinci”, o que não acontece no cinema. Boa amostra também da mentalidade publicitária de nossa era. Contudo, o mais interessante é o subtexto, mais sutil em obras pops do que nas de arte, o que não deixa de ser curioso. O ato de criação divino usado como símbolo da destruição da vida sugere um Deus falho e finito. Em outras palavras, Deus seria o próprio homem tentando destruir a si mesmo.

Mas a obra é esperta ao colocar a falha inteiramente no homem, preservando Deus. Neste caso, Langdon segue os símbolos dos santos e anjos para descobrir o verdadeiro vilão da história: a falha do caráter humano. O homem, então, seria o lado sombrio de Deus. Esse é o jogo de “Anjos e Demônios”: isenta-se o divino para jogar a culpa na natureza humana em busca de poder. Temática comum em 99,9% das obras. Nada de crítica ao catolicismo, abalado pela própria insegurança e culpa – e que no filme tenta lavar a imagem abençoando a ciência. Portanto, uma falsa polêmica. Graças à reviravolta final, o filme se revela como uma crítica “fogo de palha” e uma convencional diversão maniqueísta, cuja estrutura se resume na frase “onde os anjos apontam é onde os demônios se escondem”. Pela inteligência de Robert Langdon, basta seguir a direção dos dedos.

 

Publicado no jornal O Dia em 26.05.09

 

VIDA LONGA E PRÓSPERA

 

 

Não há nada melhor e mais seguro do que uma lição de casa bem feita. É essa a sensação que se tem ao término do novo “Star Trek”, que chega como um reboot das aventuras espaciais protagonizadas por William Shatner e companhia nos anos 60 (a série de TV clássica) e 80 (os filmes com os personagens originais). Com uma trama absorvente, um ritmo alucinante e efeitos especiais capazes de fazer brilharem os olhos, a revitalização comandada por J. J. Abrams mantém-se fiel ao espírito trekker, ainda que consiga a proeza de também ser um filme voltado aos não-iniciados.

Pegando carona na atual tendência da indústria cinematográfica norte-americana de reiniciar suas principais franquias do zero, como ocorreu com Batman, Superman, James Bond, Hulk, entre outros, “Star Trek” basicamente mostra como se formou a tripulação da USS Enterprise composta por James T. Kirk, Sr. Spock, “Magro” McCoy, Uhura, Sr. Sulu, Sr. Scott e Pavel Chekov. Com todos em suas versões jovens – e, diga-se de passagem, muito parecidas –, o espectador testemunha o início dos relacionamentos que tornaram esses personagens queridos por trinta anos. Não há como deixar de sentir uma estranha familiaridade logo nas primeiras aparições e nos contatos iniciais entre eles.

Cortesia da dupla de roteiristas Roberto Orci e Alex Kurtzman, fãs assumidos da série e que conseguiram o êxito de não fugir aos dogmas trekkianos, ao mesmo tempo em que criaram uma narrativa nova e eletrizante que está o tempo todo fazendo lembrar quem aqueles adolescentes espinhentos e inseguros viriam a se tornar. Resultado: tanto os quarentões se deliciam com as diversas e certeiras referências à série clássica (leia-se: antes da Nova Geração) quanto os jovens e adultos contemporâneos podem saborear um roteiro engatado na quinta marcha desde o início que vai pondo as coisas em seus devidos lugares de maneira orgânica durante todo o decorrer da produção, sem esquecer a pretensão cool impressa em cada sequência de ação e em cada diálogo. Não se engane: “Star Trek” é milimetricamente planejado para ser o filme do momento. Isso, claro, até que outro chegue.

E consegue, principalmente depois das duas grandes decepções do ano até agora: “Watchmen” foi tão conceitualmente elaborado que o público não entendeu (o que fez o próprio roteirista da produção conclamar os fãs a verem o filme novamente) e “Wolverine” é tão bobo que deve ser lembrado apenas pela diversão escapista acéfala que oferece. Dito isso, o filme dirigido por Abrams possui o mérito de unir inteligência narrativa com o cinemão pirotécnico com tudo para não deixar nenhuma poltrona vazia. Se fica uma, é porque o apelo do fanatismo dos trekkers não cativa como a religião de “Star Wars”. Mas isso é mero detalhe comparado ao resultado alcançado pelo criador de “Lost” (ou um dos). A direção de J. J. Abrams está acima da média para as produções do gênero, deixando vazar luzes, movimentando constantemente a câmera, criando planos incríveis, sem, com isso, perder o foco dos personagens e criando momentos absolutamente memoráveis.

Nem é preciso dizer que um deles é quando Leonard Nimoy, o Spock original, surge em cena. Fã ou não, é impossível não ficar emocionado, ainda mais com a maneira genial com a qual o puseram na trama. Sem a intenção de entregar alguma coisa, basta mencionar que é o Sr. Spock o responsável por conformar a tripulação clássica da Enterprise, o que por si só demonstra o grande respeito das pessoas por trás deste “Star Trek” ao universo criado por Gene Roddenberry, o mentor da série televisiva. Zachary Quinto, o jovem Spock, é o destaque do elenco, continuando a fazer do icônico personagem o mais interessante de todos, e sua relação conturbada o jovem Kirk (Chris Pine) é outro dos pontos altos do filme. Todo o elenco escolhido a dedo é muito bem usado aqui, nesta fantástica experiência de reciclagem.

Conseguindo ser tão bom quanto dos melhores filmes da série, como “Jornadas nas Estrelas IV: A Volta para Casa” (1986) e “Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida” (1991), o roteiro habilmente deixa questões em aberto pensando no futuro, além de caprichar na medida certa de humor, ao passo que a excelente trilha sonora dá um tom operístico à narrativa, mesmo não usando o famoso tema de Jerry Goldsmith. Quando Leonard Nimoy faz a clássica narração final dos episódios, é que vem a certeza da lição de casa comentada no início deste texto. E outra: seremos testemunhas das inevitáveis próximas aventuras da Enterprise e sua tripulação, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve. Se forem excitantes como esta, será sempre um prazer embarcar com essa turma para os confins da galáxia.

Publicado no jornal O Dia 12.05.09

FILMES VISTOS EM BELÉM-PA DURANTE O CARNAVAL

. Quem Quer Ser um Milionário? (drama) * * * ½

  (Slumdog Millionaire, GB, 2008)

 

. Queime Depois de Ler (comédia) * * * ½

  (Burn After Reading, EUA, 2008)

 

. Simplesmente Feliz (drama) * * *

  (Happy-Go-Lucky, GB, 2008)

 

. Piranha (terror) * * *

  (Idem, EUA, 1978)

 

. Espartalhões (comédia) * *

  (Meet the Spartans, EUA, 2008)

 

. Violência Gratuita (drama) * * *

  (Funny Games U.S., EUA, 2008)

 

 

. Os Aventureiros do Bairro Proibido (aventura) * * *

  (Big Trouble in Little China, EUA, 1986)

 

 

. 12 Homens e Uma Sentença (drama) * * * * *

  (12 Angry Men, EUA, 1957)

 

 

. A Mulher Faz o Homem (drama) * * * *

  (Mr. Smith goes to Washington, EUA, 1939)

 

 

. Brother (policial) * * *

  (Idem, EUA/GB/JAP, 2000)

 

 

. Sexta-Feira 13 (terror) * *

  (Friday the 13th, EUA, 2009)

 

 

. O Lutador (drama) * * * * ½

  (The Wrestler, EUA/FRA, 2008)

 

 

. O Leitor (drama) * * * *

  (The Reader, EUA/ALE, 2008)

 

. Milk – A Voz da Igualdade (drama) * * * *

  (Milk, EUA, 2008)

 

. Frost/Nixon (drama) * * * * ½

  (Idem, EUA, 2008)


. Filhos do Silêncio (drama) * * * *

  (Children of a Lesser God, EUA, 1986)

 

. Força Sinistra (ficção) * * ½

  (Lifeforce, GB, 1985)

 

. Nós que nos Amávamos Tanto (drama) * * * ½

  (C'eravamo Tanto Amati, ITA, 1974)

 

. Sob o Domínio do Medo (drama) * * * ½

  (Straw Dogs, GB/EUA, 1971)

 . 2010 – O Ano em que Faremos Contato (ficção) * * *

  (2010, EUA, 1984)

 

. Depois do Vendaval (romance) * * * *

  (The Quiet Man, EUA, 1952)

 

. Loucos de Dar Nó (comédia) * * *

  (Stir Crazy, EUA, 1980)

 

* Abraços aos meus amigos Manel e senador Marcão, que, como sempre, me acolheram muitíssimo bem na capital paraense.

SIMPLESMENTE FELIZ * * *

(Happy-Go-Lucky, 2008)

 

A atuação de Sally Hawkins é o que move esta comédia dramática do consagrado Mike Leigh. Ela interpreta uma mulher absurdamente efusiva e que está sempre rindo de tudo, e atravessa a vida assim, com muito bom humor. É então resolve aprender a dirigir carro e pega um instrutor extremante mal humorado e que termina ficando obcecado por ela. Um roteiro muito humano e uma interpretação digna de reconhecimento fazem de Simplesmente Feliz um filme imperdível e até comovente. Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original. (19.02.09 - Belém-PA)

QUEIME DEPOIS DE LER * * * 1/2

(Burn After Reading, EUA, 2008)

 

Após a consagração de Onde os Fracos não Têm Vez, os irmãos Coen atacam com esta rápida e certeira comédia de erros na qual ninguém realmente sabe o que está acontecendo. Ao encontrar um CD contendo certas informações de um ex-funcionário da CIA, que por sua vez está redigindo um explosivo memorando sobre a Agência, os personagens de Frances McDormand e Brad Pitt (numa atuação hilária) desencadeiam uma série de eventos que só faz aumentar cada vez a confusão. Sem grandes pretensões nem genialidades, os Coen destilam seu humor ácido sobre a idiotice norte-americana, a paranóia do terrorismo e diversos outros temas. As cenas em que tentam compreender o desenrolar da situação são as melhores. (19.02.09 - Belém-PA)

QUEM QUER SER UM MILINÁRIO? * * * 1/2

(Slumdog Millionaire, 2008)

 

Embora já tenha vários filmes no currículo, incluindo duas pérolas cults dos anos 90, Cova Rasa e Trainspotting – Sem Limites, somente agora o inglês Danny Boyle tem a chance de alcançar êxito internacional. Isso por causa de toda a projeção deste Quem Quer Ser Milionário?, fábula indiana passada na fervente Mumbai sobre um rapaz de favela que acerta todas as perguntas do famoso programa. O fato é que desconfiam se ele trapaceou ou se sabia mesmo as respostas. O roteiro de Simon Beaufoy nos responde isso de forma bem costurada e até mesmo inusitada, o que não deixa de escorregar um pouco na obviedade de sua própria estrutura. Mas indubitavelmente é uma obra interessante, e que possui méritos próprios, como a direção de Boyle, que mantém-se fiel ao seu estilo e ainda extrai ótimas performances de todo o elenco. Cheio de referências ao cinema indiano, no geral é um filme bem otimista e possui até um final a la Bollywood. Ganhou 4 Globos de Ouro e 8 Oscars. (19.02.09, em Belém-PA)

O GAROTO QUE PODIA VOAR * * *

(The Boy Who Could Fly, EUA, 1986)

 

Fazia anos que eu não revia este filme, na verdade uma fábula que trata de assuntos delicados de maneira lúdica, até certo ponto ingênua. Mas quem é da geração de 80 certamente vai se sentir nostálgico com a história do garoto que podia voar e seu relacionamento com a vizinha recém-chegada. Enfim, era sábado à noite e eu estava uma pilha após quase oito horas direto na finalização do meu filme, Dona Maria, que tentarei lançar em março agora (finalmente, depois de quatro anos e dez mil atropelos!). Não tinha paciência para ver ninguém e nem queria assistir a algo mais pesado. Ressuscitei o VHS e voltei no tempo.

 

O filme conta a história de Eric, que mora com o tio alcoólatra desde que os pais morreram de uma queda de avião. O fato é que o menino é autista e finge ele próprio ser um avião, o que de imediato chama a atenção de Milly, sua vizinha, que se muda para a casa ao lado depois da morte do pai. A menina começa a se sentir atraída pelo jovem que fica horas do lado de fora da janela com os braços abertos como se fosse decolar a qualquer momento. Termina sendo incumbida pela professora a acompanhar Eric nas tarefas escolares. Vai se envolvendo aos poucos com o garoto, até descobrir a incrível verdade sobre seu comportamento.

 

Escrito e dirigido por Nick Castle, mais especializado em comédias (talvez a mais conhecida do grande público seja Dennis, o Pimentinha, de 1993) e trabalhos para a TV, tendo dirigido um episódio da série Histórias Maravilhosas, O Garoto que Podia Voar possui um desenvolvimento simples e cuidadoso e, além de abordar a questão do autismo, toca em temas como suicídio, diferença, integração, sempre de forma sensível, mas sem aprofundar demais. Castle fez um filme para a família, bastante agradável de se ver e tocante em certos momentos.

 

A música de Bruce Broughton (indicado ao Oscar por Silverado, de Lawrence Kasdan) ajuda a realçar a melancolia que permeia a história e fica na nossa cabeça por um bom tempo. O elenco está em sintonia, em especial Lucy Deakins e Jay Underwood como o casal central (suas carreiras não deslancharam apesar de terem vários outros trabalhos no currículo), e ainda conta com Bonnie Bedelia (a esposa de John McClane na série Duro de Matar) e o pequeno Fred Savage, o astro da série Anos Incríveis (1988-1993).

 

Obviamente, como o título avisa, o garoto pode voar, o que rende momentos oníricos bebidos na fonte de Superman de Richard Donner, alguns poéticos com o céu alaranjado (a fotografia, por sinal bela, é assinada por duas pessoas, Adam Holender e Steven B. Poster) e outros edificantes quando todos testemunham o fato. No final, sai-se como uma fita modesta e simples em que todos aprendem a lição e recomeçam a vida. Pode soar datado hoje, mas os elementos funcionam e, se não se estiver esperando muita coisa, pode tocar de forma singela e significativa.

 

Para os saudosistas de plantão.

HORIZONTE PERDIDO * * * *

(Lost Horizon, EUA, 1937)

 

Um dos grandes clássicos de Frank Capra, realizado entre O Galante Mr. Deeds e Do Mundo Nada se Leva, dois filmes que lhe deram o Oscar de direção. Horizonte Perdido, apesar de ter concorrido a sete prêmios da Academia, incluindo melhor filme, levou apenas edição e direção de arte. Também pudera. Trata-se de uma produção suntuosa sobre a mística Shangri-La, nos confins do Tibete.

 

A mais bem-sucedida adaptação do livro de James Hilton, de 1925. Shangri-La é uma utopia, a concepção de um paraíso terrestre, onde impera a moderação dos sentimentos, todos são felizes e o tempo não passa. Supostamente escondida por entre as montanhas do Himalaia, inspira artistas e intelectuais desde sua criação literária. Foi inspirada em Shambhala, local místico presente em textos sagrados antigos e em tradições orientais.

 

E Frank Capra calca sua narrativa nesse misticismo, abusando do soft-focus para acentuar essa áurea mística do lugar (posso estar enganado, mas foi a impressão que tive). Vários críticos reclamam que a obra envelheceu por causa de sua ingenuidade. Tanto que ficamos esperando alguma revelação sombria, como bebês deficientes ou pessoas que não condizem com o estilo de vida de Shangri-La sendo sacrificados ou expulsos. Enfim, sinal de que o mundo foi que ficou cínico, como mostram filmes como A Praia, em que o paraíso perfeito possui seu ônus para ser mantido.

 

Mas nada disso acontece aqui. Shangri-La realmente nos acomete uma sensação agradável de paz interior e esperança, principalmente agora que vivemos rodeados por brutal falsidade, acidez e individualismo. O DVD com a obra restaurada é um presente para os cinéfilos, com comparação antes e depois da restauração, mini-documentários, final alternativo, além de chegar bem perto da montagem original do filme, com cenas compostas por fotos no lugar do negativo que se perdeu, utilizando-se o áudio.

 

Nada que prejudique realmente a grata experiência concebida por Capra, o cineasta do otimismo. Shangri-La ainda é um refúgio dos sonhos, uma esperança acalentadora, uma fuga bem-vinda.

SURPRESAS DO AMOR * * *

(Four Christmases, EUA/ALE, 2008)

 

Fez inesperado sucesso esta comédia natalina que recebeu um nome bobo por aqui. É sobre um casal moderninho (não são casados nem querem filhos) que gosta de viajar em feriados e se recusa a visitar as famílias, que são quatro já que os pais de ambos são divorciados. O que acontece é que eles terminam não conseguindo embarcar na véspera de Natal e são obrigados a fazer visita por vista. Além das muitas confusões que os aguardam, vão descobrir que talvez não se conhecem tanto o quanto imaginavam.

 

Se a felicidade é fruto da ignorância, parente literalmente é serpente. Se você estiver preparado para um humor bem escrachado, irreverente, estilo Entrando numa Fria, com piadas bem de mau gosto e algumas coisas absurdas, então vai entrar no clima deste filme dirigido por Seth Gordon (que fizera antes o elogiado documentário The King of Kong). Vince Vaughn continua com o tipo debochado que vem caracterizando sua persona cinematográfica e Reese Witherspoon tenta não fazer muita careta e esconder o queixo.

 

Mas quem se destaca mesmo são os coadjuvantes. O filme tem participações de veteranos como Robert Duvall, Sissy Spacek, Mary Steenburgen e Jon Voight, além de um Jon Fraveau hilário. Para quem não sabe, Fraveau é o diretor do sucesso Homem de Ferro e foi quem deu a primeira grande chance a Vaughn no independente Swingers – Curtindo a Vida, de 1996, que ele escreveu.

 

Obviamente o humor debochado termina dando lugar para o romance na reta final da produção. O desfecho é coerente, porém pouco inspirado e que deixa o filme com um saldo devedor. Entretanto, para uma comédia com cara de programa descartável, até que rende boas risadas e sua duração curta (menos de 90 minutos) ajuda a experiência. Para desopilar mesmo e só.

PERSÉPOLIS * * * *

(Persepolis, FRA/EUA, 2007)

 

Animação indicada ao Oscar em 2008, Persépolis é um retrato fascinante das mudanças sócio-políticas de uma nação. No caso aqui o Irã, desde a queda do regime do xá (título de nobreza dos monarcas da Pérsia, como o país era chamado pelo ocidente até 1935) Mohammad Reza Pahlevi em 1979 com a Revolução Iraniana promovida pelo Aiatolá Ruhollah Khomeini e a princípio visto com bons olhos por grande parte da população. Só que a república islâmica estabelecida mostrou-se ainda mais repressora, com leis baseadas no islamismo e o clero obtendo poder político. Foi quando as mulheres começaram a se cobrir e várias liberdades de antes foram proibidas.

 

Tudo isso visto sob o prisma de Marjane Satrapi, que co-dirige sua cinebiografia animada, desde a infância, passando por sua estadia em Viena, o regresso a um país bastante mudado e por fim a ida para a França. A produção é baseada em seu livro e nos quadrinhos que assina. O desenho tem o estilo particular dos quadrinhistas europeus e é quase todo em preto-e-branco. Cheio de referências pop, não deixa de ser uma experiência lúdica e obrigatória para quem quer entender as mudanças históricas ocorridas na região e que até hoje é foco de conflito e até mesmo luta pelos direitos humanos. Contudo, é uma obra sobre experiência e amadurecimento, não se esquece de mostrar as paixões de Marjane, suas falhas de caráter típicas da juventude e seus desvios de conduta.

 

Persépolis era o nome da antiga capital pérsia, hoje Teerã, onde nasceu a protagonista. Enfim, um filme bem interessante de se ver.

CONTROLE ABSOLUTO * * *

(Eagle Eye, EUA, 2008)

 

Um dos gestos mais controversos e (para mim) repulsivos da derradeira fase da era Bush foi justamente o Ato Patriótico, que conferia ao Estado poder de vigiar os indivíduos da nação norte-americana considerados “suspeitos” – na visão de Bush, todo mundo. A distopia de George Orwell, advinda da filosofia de Berkeley, acerca da contenção do comportamento dos cidadãos por meio do olho que tudo vê, o Grande Irmão (muita gente assiste ao Big Brother sem saber as bases filosóficas do formato do programa), retratada em 1984 parecia está acontecendo. Vamos ver se Barack Obama muda esse curso.

 

Seja como for, essa perda da privacidade rendeu alguns filmes. Batman – O Cavaleiro das Trevas fez uma leitura da questão para o grande público, enquanto Controle Absoluto mostra que podemos estar sendo monitorados pelos meios mais inusitados, e nem um celular desligado escapa. Neste último, Shia LaBeouf, novo queridinho da América, é confundido com um terrorista e perseguido pelo FBI, ao mesmo tempo em que é “ajudado” por uma voz e se envolve numa trama de atentado ao poder vigente do país mais poderoso do mundo.

 

Dirigido por D. J. Caruso, que já havia feito com LaBeouf o eficiente Paranóia, versão teen de Janela Indiscreta que também aborda o uso da tecnologia nos dias de hoje, Controle Absoluto é diversão que transcende o mero escapismo ao suscitar reflexões sobre o poder estatal sobre os indivíduos e o abuso da tecnologia e, sobretudo, da inteligência artificial. As sequências de ação possuem impacto, realizadas em grande escala e a priori com o uso mínimo de computação gráfica. O roteiro alterna referências que vão desde Inimigo do Estado, o primeiro grande filme a tocar no tema do monitoramento estatal via satélites, a 2001 – Uma Odisséia no Espaço, sendo que o antológico computador HAL 9000 encontra aqui seu "equivalente feminino", Aria (voz não-creditada de Julianne Moore). Se é que máquinas podem ter gêneros discriminados.

 

Aparando as arestas, o enredo é simples e não possui grande originalidade, descambando para o óbvio das super-produções hollywoodianas. O desfecho termina sendo fraco, porém o ritmo frenético, a segurança da direção e o carisma do elenco fazem desta uma produção a ser apreciada em volume máximo.

A TROCA * * *

(Changeling, EUA, 2008)

 

Los Angeles, década de 1920. Christine Collins encara o inferno quando seu filho de nove anos, Walter, desaparece. Cinco meses depois a polícia encontra o menino e o devolve à mãe. Só que devolvem o garoto errado e Christina é persuadida a acreditar que se trata de seu filho para limpar a barra da Polícia de Los Angeles, que já tem fama de corrupta e violenta. Até o leva para dentro de casa. Quando insiste em provar que aquele não é seu filho, termina sendo internada, pela própria polícia, num hospital psiquiátrico. Como se não fosse uma história absurda, ela é real.

 

Clint Eastwood até acerta o tom na primeira metade do filme e o desespero e a angústia de Angelina Jolie comovem e fazem merecida sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Sua insistência em ter notícias do filho, os detalhes de sua fragilidade de mãe desamparada são tocantes, compõem bem o perfil da mulher que nunca desistirá de buscar por Walter, mesmo quando recebe outro em seu lugar. E é aí que sua interpretação ganha peso. A princípio confusa, em algum momento ela até quer acreditar que está distorcendo as coisas, mas os fatos falam mais alto e sua determinação se torna mais forte. Na cena em que Angelina confronta o menino, pode-se notar que seu lado materno (como mãe na vida real) não a deixa ser mais agressiva, tornando-a até politicamente correta. Compreensível e que não diminui o lado positivo de sua atuação.

 

Mas o roteiro de J. Michael Straczynski, que atualmente assina o arco principal dos quadrinhos do Homem-Aranha, falha em ser formulaico e perder chance de criar peso e tridimensionalidade para a personagem. Ela só quer encontrar o filho, o que é lindo, mas termina entrando na jornada em prol de justiça arquitetada pelo reverendo interpretado por John Malkovich. Nesse ponto do filme, entra em cena um serial killer de crianças e tudo vira um drama de tribunal, quando se percebe a mão pesada de Eastwood, que muda completamente o tom da narrativa e arrasta o filme até não poder mais.

 

O resultado é um filme que não chega a surpreender. Possui não sei quantos finais falsos e aquela sensação de que tudo já havia terminado uma hora antes. Nessa bossa malconduzida, há uma cena desnecessária e até constrangedora: a execução do assassino de crianças, que nunca se explica ou é melhor explorado pela produção. A impressão é que as duas tramas ficam meio que soltas no contexto real da história. Foi indicado ainda ao Oscar de direção de arte e fotografia. Enfim, Clint fez o que pôde (herdou o projeto de Ron Howard), mas não fez o seu melhor.

AUSTRÁLIA * *

(Australia, EUA/AUS, 2008)

 

O problema de Austrália é um só: quer reinventar a roda sem ter uma base sólida para isso. Não tenho nada contra reinventar a roda, é até um caminho difícil de fugir hoje em dia, mas é preciso saber o momento certo para testar a própria mediocridade. Moulin Rouge funciona porque veio na hora certa e trouxe elementos frescos para o gênero musical. Austrália percorre o caminho inverso: enquanto os épicos acompanham o sinal dos tempos, o filme de Baz Luhrmann opta por uma narrativa estilo anos 40.

 

Em seu aspecto revisionista, passa longe das fontes que bebe. Não é à toa que Luhrmann situa sua história em 1939, considerado um ano marco para o cinema, com obras como ...E o Vento Levou, No Tempo das Diligências e O Mágico de Oz, cuja canção-tema Austrália toma forçadamente emprestada. Ele fez isso para subverter um pouco os elementos, porém o tiro termina saindo pela culatra. A primeira metade do filme se esforça para ser engraçada, enquanto o conceito é abandonado na metade seguinte em prol do formato romântico do épico.

 

O casal central luta para transbordar empatia, ao passo que os coadjuvantes, ilustres desconhecidos, são que se destacam. Enfim, Austrália possui um meio arrastado, na transição da mudança de tom, e termina descambando para a obviedade dos clichês do gênero. Resultado: não empolga ninguém e nem almeja o que buscava a princípio. Quase uma perda de tempo quilométrica.

NÃO ESTOU LÁ * * * 1/2

(I’m not There., EUA/ALE, 2007)

 

Sem dúvida, um filme curioso e até mesmo imprescindível aos fãs de Bob Dylan. Não se trata de uma cinebiografia nos moldes tradicionais do cantor e compositor, e sim de uma alegoria às suas diversas fases, tanto profissionalmente quanto pessoalmente. Explico: seis diferentes atores interpretam as diversas facetas do artista ao longo de sua trajetória, não de uma maneira estritamente linear, mas sempre intercalando os segmentos com uma montagem interessante.

 

O cineasta Todd Haynes, que já abordara o movimento glam (subgênero do heavy metal dos anos 80) em Velvet Goldmine, agora tenta dissecar a alma folk por meio de seu grande expoente moderno. O espectador que conhece a fundo a história de Bob Dylan – ou tenha visto e, sobretudo, revisto o brilhante documentário de Martin Scorsese No Direction Home: Bob Dylan – certamente vai captar com mais facilidade as sacadas da miscelânea narrativa orquestrada por Haynes. São interpretações livres das fases de sua vida, desde profeta prodígio, poeta, passando pelo contestador político, marginal, até seu rompimento com a música folk. Nomes como Christian Bale, Richard Gere e Heath Ledger emprestam suas caras para ajudar a montar o painel, ainda que contraditório, deste ícone da música.

 

Quem mais chamou a atenção do público e da crítica, talvez por se parecer mais com Dylan na lembrança dos jovens adultos, foi Cate Blanchett, que chegou a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Misturando várias técnicas narrativas, o filme de Todd Haynes almeja ser único e brilhante. Gênio por gênio, ainda fico com as três horas e meia do filme de Scorsese, mesmo que não desqualifique a incrível viagem que Haynes se propôs a fazer pelo imaginário de um artista completo. Em uma leitura mais sólida, Não Estou Lá segue na busca pela identidade nuclear de um espírito fragmentado. O pensamento é mutável. Não se prende a formas ou ideologias. Muito menos a rostos.

 

 

O ARCO * * * * 1/2

(Hwal, CO, 2005)

 

Este é 12º filme de Kim Ki-Duk, como a própria produção faz questão de ressaltar no término do mesmo. E não à toa. Usando o arco e a flecha como alegoria da busca pelo sublime, pela perfeição, mostra o relacionamento de uma garota de 16 anos e um velho de 60 num barco de pesca em alto-mar. O velho prepara a garota para casar-se com ele e a priva de qualquer contato social.

 

Obviamente, não dá tão certo assim e ela termina se apaixonando por um rapaz que vai lá com o pai pescar, provocando ciúme no velho, enquanto ela se descobre cada vez mais sufocada por aquela situação. A narrativa é lenta e contemplativa, mas quem conhece o trabalho de Ki-Duk, como Primavera, Verão, Inverno, Outono... e Primavera, vai entender a proposta do filme.

 

Lindo de se ver, trata-se de um retrato do relacionamento obsessivo, do ciúme, da dependência afetiva, de maneira sutil, poética até. A menina e o velho nunca possuem suas vozes ouvidas e as sequências de oráculo são extremamente bem realizadas. O desfecho é simplesmente antológico, um ode à questão divina que envolve a virgindade e a perda dela. Recomendadíssimo. Uma pequena obra de arte.

 

 

CONTROL * * * *

(Idem, GB/EUA/AUS/JAP, 2007)

 

Ian Curtis morreu jovem. Enforcou-se aos 23 anos. Vocalista da Joy Division, cultuada banda dos anos 70, deixou uma obra pequena, mas que perdura até hoje. Casado com Deborah Curtis, ficou notório seu caso com Anik Honoré, sua dança esquisita (que Renato Russo tomou para si), sua personalidade introspectiva e seus ataques de epilepsia durante os shows.

 

Control retrata tudo isso, o início, o auge e o declínio da banda e do próprio Ian Curtis. No entanto, vai além. Baseado no livro da viúva dele, Touching from a Distance, o filme é um painel contundente de alguém se distanciando de si mesmo gradativamente. O diretor Anton Corbijn acertou ao retratar Curtis como um indivíduo deslocado em seu próprio ambiente, extremamente poético e sensível, mas sempre com um bom caráter, apesar de roubar a namorada do amigo e ter um caso extraconjugal. Coisas que ninguém controla.

 

E essa falsa sensação de controle Curtis vai perdendo à medida que a banda deslancha e ele se vê preso entre o amor pela esposa e a paixão pela amante, não conseguindo se libertar de nenhuma (a fotografia em preto-e-branco salienta isso de maneira brilhante, como quando mostra o protagonista preso entre os cantos da parede enquadrando-o a ponto de não lhe dar escapatória). Termina resultando no estudo das prisões que nós mesmos criamos.

 

Mas o filme não tenta explicar Ian Curtis, ao mesmo tempo em que tenta não cair no rótulo de gênio incompreendido. Periga retratá-lo como um homem frágil que não soube lidar com as circunstâncias que ele mesmo criou. O processo criativo não é abordado aqui. Corbijn se preocupa com o lado humano da história, sendo por isso o recheio de ótimas atuações, destacando-se Sam Riley e, sobretudo, Samantha Morton, como a sofrida e apaixonada Deborah.

 

Acompanhado pelas músicas da Joy Division, Control entra para a lista de filmes como The Doors e Quase Famosos, que mostram a efervescência musical dos anos 70. Para quem é fã da banda, é indispensável.

 

 

                                                                                                                  

NA MIRA DO CHEFE * * * * 1/2

(In Bruges, GB/EUA, 2008)

 

O título nacional arrisca fazer com que o espectador daqui deixe de conferi esta brilhante comédia dramática que deu o Globo de Ouro de Melhor Ator de Comédia/Musical a Colin Farrell e teve o roteiro indicado ao Oscar. Merecidamente. Poderia até ganhar.

 

Após um trabalho desastroso, dois assassinos profissionais se escondem na turística cidadezinha de Bruges, que fica na Bélgica, enquanto aguardam a orientação do chefe. Termina que um dos assassinos é encarregado de executar o outro, justamente Farrell, que está em crise existencial por ter matado um menino e pensa constantemente em suicídio, envolve-se com uma mulher local e cria um estranho relacionamento com um ator anão.

 

Mas tudo é muito bem conduzido pelo diretor/roteirista Martin McDonagh, que já havia sido premiado com um Oscar de curta-metragem (Six Shooter). Ele demonstra grande talento na construção dos personagens e, principalmente, na ambientação da história, uma vez que Bruges vira um personagem à parte. Com um humor negro preciso e um toque melancólico pontuado pela trilha sonora e pela abordagem existencialista, Na Mira do Chefe cresce ao longo de seu desenvolvimento sem que se perceba isso até que todos os elementos convergem ao desfecho, sem falar na qualidade rara dos diálogos. Pode lembrar um pouco o trabalho dos irmãos Coen e um filmezinho genial de 1997 chamado Matador em Conflito, com John Cusack.

 

Uma pérola, esta obra de McDonagh. Sem dúvida, uma pérola.

 

 

                                                                                                                           

 

INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL * * *

(Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, EUA, 2008)

 

 

Os Heróis não Têm Idade

 

E quem disse que os heróis não envelhecem? Sim, eles envelhecem, às vezes bem, outras vezes mal. Entretanto, continuam sendo heróis e a povoar o imaginário daqueles que acreditam. O problema é que aqueles que acreditam parecem estar ficando cada dia mais poucos. O cinismo dos tempos atuais, no qual a fé se converteu num passatempo para os que possuem crises existenciais e o amor de fato se evapora bem diante dos olhos, não deixa sobras para se crer na magia, na liberdade da imaginação, no romantismo de quem ainda teima em buscar seus sonhos. Heróis, sim, envelhecem, mas não morrem. Quanto menos se espera, eles reaparecem para trazer alívio aos que acreditam – ou pelo menos uma gostosa sensação nostálgica que, embora passe, deixa a impressão de que o tempo não necessariamente precise engolir tudo para sempre, uma vez que a única constância das coisas é que elas são inconstantes.

         

Sendo assim, poder-se-ia imaginar que dezenove anos depois de sua derradeira aparição, cavalgando com sua trupe rumo ao sol poente, o intrépido arqueólogo Indiana Jones reaparecia em mais uma aventura na tela grande para o deleite dos fãs e a apreciação dos que ainda não são? Por que não? Desde o início da década de 90 que se especulava acerca de uma quarta aventura de Indy. Ford, Spielberg e Lucas sempre saíam pela tangente quando questionados a respeito, deixando uma pontinha de esperança de revisitarem a clássica trilogia dos anos 80. Pois bem, após anos de encontros e desencontros sobre qual seria o Macguffin (objeto que move a trama) dessa vez e o refinamento do roteiro, que passou pelas mais variadas mãos, Ford envelheceu, Lucas consegui fechar sua série espacial e Spielberg cresceu. A questão era: como seria um novo filme de Indiana Jones com todos esses elementos circunstanciais reunidos? “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” responde isso. Satisfatoriamente? Depende qual fila de poltronas você senta.

         

De longe, a grande sacada deste novo filme é assumir a idade de Harrison Ford, com 65 anos e muita disposição no corpo. Com isso, tem-se um Indiana Jones fazendo suas peripécias de aventureiro com o roteiro sempre pontuando – ironicamente, claro – seus quilômetros rodados (a antológica frase de “Os Caçadores da Arca Perdida”, “não é a idade, e sim a quilometragem” cairia como uma luva aqui). Na trama de George Lucas e Jeff Nathanson, Indy se encontra na era da Guerra Fria sendo investigado pelo FBI por suas atividades extra-acadêmicas. Demitido da universidade na qual sempre lecionou, ele se junta ao impetuoso adolescente Mutt Williams para salvar um antigo amigo seqüestrado pelos comunistas enquanto procurava a tal caveira de cristal do título e o paradeiro do reino de Akator, onde a caveira traria grande poder a quem a devolvesse. Nesse ínterim, Jones escapa da morte um sem-número de vezes das maneiras mais fantásticas possíveis e ainda reencontra sua grande paixão, Marion Ravenwood, vista pela última vez no primeiro filme da série, em 1981.

         

De lá para cá, o mundo, digo, o do cinema, mudou muito. Psicologizaram os personagens, complicaram os enredos, criaram o CGI. O mérito de Spielberg em “O Reino da Caveira de Cristal” é tentar fazer um grande filme à moda antiga, como o fez no passado. E quase consegue. A narrativa tem a proeza de recriar os passos de um Spielberg jovem, só que agora sabendo cinicamente que seu herói é um ícone, e a fotografia remete de forma surpreendente a dos três filmes anteriores. Só isso já faz esta nova aventura ter seu charme particular para os cinéfilos, acentuada pelo clima dos filmes B e das ficções-científicas dos anos 50 nos quais bebe na fonte (nada mais coerente pela época em que a história acontece). As referências são ótimas, desde “O Selvagem da Motocicleta” e “Juventude Transviada” com o personagem Mutt Williams a até mesmo uma brincadeira com o personagem vivido por Ford na série “Star Wars”. E então entra em cena o quase: justamente a fragilidade da trama, assinada por David Koepp, que roteirizou alguns filmes de Spielberg, como “Jurassic Park” e o remake de “Guerra dos Mundos”, e o uso abusivo, mas normal para os tempos atuais, dos efeitos especiais, que, por mais incríveis que sejam, destoam das técnicas utilizadas na trilogia. Com um Macguffin não muito interessante (o melhor, sem dúvida, é a Arca da Aliança, seguida do Santo Graal), a trama acaba soando boba, apoiada em pesadas seqüências de ação e nas gags, algumas ótimas, como a da logo da Paramount, umas nem tanto e outras desnecessárias, para tornar “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” uma experiência super divertida e rentável.

         

De certa forma, muito se perde com isso. O melhor do filme, que é a dinâmica do trio Indy-Mutt-Marion, no fim das contas não ocupa muito tempo na projeção. Enquanto a relação dos dois primeiros remete a de Indiana com seu pai, Henry Jones, em “Indiana Jones e a Última Cruzada”, a de Indy e Marion tenta reaver o clima romântico abandonado em “Caçadores...”, mas só consegue poucas faíscas de um fogo há muito apagado. Do lado dos vilões, Cate Blanchett, geralmente ótima, está apagada num papel caricato. Os únicos que se salvam são mesmo Harrison Ford e Shia LaBeouf, que faz Mutt Williams. Ford sempre vai ser Indiana Jones, passe o tempo que for (e ele sabe encarnar o personagem com perfeição), e LaBeouf tem carisma e talento suficientes para competir a cena com qualquer astro. Ah, e a música de John Williams, esta ainda capaz de gerar um friozinho na barriga, uma sensação de que, embora o herói tenha envelhecido, o tempo não passou e a magia pode superar, mesmo que por breves instantes, o cinismo no qual o mundo, digo, o real, está mergulhado. Nesse caso, é o filme que não atinge o ápice dos anteriores ou é o cinismo de hoje que faz as peripécias do herói soarem absurdas e até mesmo patéticas? Em todo caso, valeu pela tentativa. Quem se permitir contagiar pela energia retrô do filme pode chegar à conclusão de que o tempo é uma ilusão ou quem sabe (só quem sabe) nosso espírito, assim como os heróis, também envelhece.

FIM DOS TEMPOS *

(The Happening, EUA, 2008)

 

 

Sentada num banquinho no Central Park, uma mulher lendo um livro e conversando com outra pega o seu palito de cabelo e, sem qualquer motivo que seja, enfia no próprio pescoço. É o início de uma série de suicídios em massa que passa a aterrorizar o centro-oeste dos Estados Unidos. A princípio, o fenômeno é atribuído a um ataque terrorista, o que logo é descartado devido ao fato da toxina espalhada pelo vento atacar grupos de pessoas cada vez menores. Um professor de ciências (Mark Wahlberg) tenta sobreviver ao colapso do fim dos tempos, ao mesmo tempo em que se encontra numa crise conjugal.

         

Dos filmes que se propõem a despertar algum tipo de alerta e consciência acerca das conseqüências do efeito estufa, este é de longe o pior deles. M. Night Shyamalan conseguiu chegar ao fundo do poço em sua filmografia descendente (De “O Sexto Sentido” a “A Dama na Água”, o indiano foi descendo um degrau por vez na escala de qualidade), com este suspense ecológico no qual as plantas se revoltam com a humanidade que nunca lhe deram a devida importância. O que poderia ser uma premissa curiosa resulta num filme patético que soa arrastado, apesar de só ter uma hora e meia de duração, e no qual pela primeira vez vêem-se pessoas fugindo de vento. A direção de atores é inexistente aqui, todas as reações são sintéticas demais para se falar em atuações, e até o estilo de câmera de Shyamalan nunca casa com a história que ele (não) desenvolveu – e não me falem da seqüência do revólver porque é impossível alguém atirar na própria cabeça e jogar a arma para frente (quanto mais duas pessoas fazerem exatamente a mesma coisa). Restringir tal fenômeno a uma determinada área é outra coisa que não faz sentido, assim como o evento se encerrar ao bel prazer do cineasta, justo no clímax do sacrifício amoroso do casal central. “Fim dos Tempos” é uma grande bobagem que só corrobora a tese que Shyamalan perdeu o toque. Ou quem sabe nunca o teve realmente. “Fim dos Tempos” será o fim de uma carreira meteórica?

O INCRÍVEL HULK * * *

(The Incredible Hulk, EUA, 2008)

 

Após a abertura reinventando a origem do personagem, já que, por motivos óbvios, os produtores não gostaram do resultado da abordagem psicanalítica de Ang Lee cinco anos atrás, encontramos o cientista Bruce Banner escondido no Brasil, onde tenta aprender a controlar sua raiva – e nosso país surge como o lugar ideal para isso! – ao mesmo tempo em que busca a cura para conter de uma vez por todas o monstro verde que o acidente com raios gama pôs dentro dele. Sem delongas, o general Ross descobre seu paradeiro e a caçada ao angustiado Banner, e conseqüentemente ao seu poderoso alter ego, recomeça, tendo na linha de frente o ambicioso Emil Blonsky, o único ser humano disposto a encarar Hulk de frente, nem que para isso precise se transformar em algo pior e mais devastador que o gigante esmeralda.

         

Mais acessível que seu original ignorado (Lee usou seu “Hulk” para falar da relação entre pais e filhos, inconsciente e sentimentos reprimidos), “O Incrível Hulk” deixa de lado qualquer aspecto psicologizante dos personagens para engatar uma trama enxuta, e por isso certeira, focada na ação bem orquestrada pelo diretor Louis Leterrier e num ritmo de montagem que não deixa a peteca cair, apesar da montagem do filme anterior ser mais interessante como adaptação de quadrinhos. Diferenças à parte, pode-se dizer que esta nova aventura é uma bela homenagem à série de TV protagonizada por Bill Bixby e Lou Ferrigno de 1978 a 1982, contando, inclusive, com a participação deste último, que, além de interpretar um guarda universitário, faz a voz do gigante verde digital. Sim, desta vez ouvimos o bordão “Hulk esmaga!” e não tem como a platéia de trintões viciados em quadrinhos não ir ao delírio. Tendo Edward Norton na pele de um Bruce Banner sofrido como carregasse uma maldição, o elenco é cheio de altos e baixos, destacando-se mesmo o sempre ótimo Tim Roth como Emil Blonsky, que, como todos sabem, vem a se tornar o Abominável, embora seu embate com Hulk decepcione um pouco. Contando com um roteiro formulaico redigido por Zak Penn, e revisado pelo próprio Norton, a trama ganha méritos por ir direto ao assunto (e toda a seqüência no Brasil é formidável, talvez a melhor do filme) e não deixar pontas soltas, embora alguns empurrões na história pareçam forçados, como a que se refere ao namorado de Betty (Liv Tyler), quem sabe por terem cortado uma cena dele com Banner, a qual aparece no trailer. É até compreensível optarem por um filme certinho do Hulk para não correr o risco de enterrar comercialmente o personagem, visto os planos da Marvel esboçadas aqui e em “Homem de Ferro”. O futuro parece excitante para quem gosta de quadrinhos e vamos torcer para que consigam finalizar bem o grande esquema que, sem qualquer sutileza, estão arquitetando.

DEXTER - 1a TEMPORADA * * * *

(Dexter – Season One, EUA, 2006)

         

Dexter é um perito forense da polícia de Miami que ajuda a desvendar os mais horrendos crimes a partir dos rastros de sangue encontrados no local. Cheio das mais certeiras intuições sobre como trabalha a mente de um assassino, ele esconde um terrível segredo: um forte impulso de matar. Com a ajuda do pai adotivo, Dexter aprendeu a canalizar seu impulso destrutivo àqueles que, de uma maneira ou de outra, merecem morrer. Um assassino que extermina assassinos e finge a todo custo levar uma vida normal, é o que Dexter é. Só que alguém sabe seu segredo. Alguém que mata prostitutas e não as deixa com uma gota de sangue. Sem sangue. Dexter fica intrigado e aceita participar do jogo proposto por seu novo e inesperado amigo.

OS INDOMÁVEIS * * *

(3:10 to Yuma, EUA, 2007)

         

Depois de ter sua fazenda saqueada, Dan Evans (Christian Bale) aceita a proposta do xerife local para conduzir o perigoso Ben Wade (Russel Crowe) até o trem que parte exatamente às 3h10 para a prisão de Yuma. Logo, Evans e a trupe que o acompanha percebem que chegar ao destino no horário não será nem um pouco fácil.

         

“Os Indomáveis” se trata da refilmagem de “Galante e Sanguinário”, de 1957, protagonizado por Van Heflin e Glen Ford. O versátil cineasta James Mangold (“Cop Land”, “Garota Interrompida”) faz aqui uma autêntica homenagem ao gênero Western, empregando todos os recursos que o marcaram como um dos melhores gêneros do cinema norte-americano. O duelo de atuações proporcionado por Bale e Crowe garante ao filme uma excelente dinâmica, com o embate entre os dois sendo a melhor coisa da produção. Ágil o suficiente para uma tranqüila manhã de sábado.

SPEED RACER * * * *

(EUA, 2008)

         

O jovem Speed Racer tem uma grande paixão na vida: as corridas de carro. Mas com um nome desses, também pudera. Após a morte do irmão mais velho, também piloto, as coisas pareciam ter perdido um pouco o sentido. Por outro lado, basta Speed estar no seu carro Mach 5 para os eixos se alinharem e ele se mostrar o melhor piloto de corridas desde o irmão. Cobiçado por patrocinadores sem qualquer vestígio de escrúpulo, ele descobre que os bastidores das corridas escondem um verdadeiro jogo de interesses no qual o melhor piloto é aquele que ajuda a aumentar o poder de grandes empresários. Com o apoio da família, Speed vai tentar provar que a equação pode, sim, ser modificada.

         

Baseado no famoso desenho japonês criado por Tatsuo Yoshida e exibido originalmente em 1967, os irmãos Wachowski deixam de lado as pretensões da trilogia “Matrix” e investem no humor cartunesco e em efeitos especiais lisérgicos para criar uma viagem de cores gritantes para toda a família. O resultado disso é uma obra apta a dividir opiniões: ou você entra na brincadeira e libera a criança imaginativa de dentro ou vai se sentir bobo por se divertir à vontade com as corridas frenéticas e o visual estilizado que remete a um sonho louco ou algo do gênero. O fato é que “Speed Racer” é um filme muito fácil de ser mal compreendido e de ter suas peculiaridades positivas ofuscadas pela estranheza do estilo adotado pelos irmãos Wachowski. Há exageros circunstanciais, é verdade, mas trata-se de um filme vibrante no qual as grandes corporações são as vilãs (uma tendência dos últimos anos) e o valor da família é posto no patamar merecido, bem como a busca pela realização dos sonhos e de sua própria identidade. Com temas revigorantes, os cineastas ainda encontram espaço para inovar as convenções narrativas, com flashbacks e flashfowards ilustrados com intensidade e transições que fogem do padrão e conferem ao filme, além de uma sensação de frescor, um ritmo perfeito para aqueles que vão ao cinema em busca de escapismo e empolgação para continuarem acreditando que sempre se é possível sonhar, e, melhor ainda, sempre se é possível realizar os sonhos.

A LOJA MÁGICA DE BRINQUEDOS * * *

(Mr. Magorium’s Wonder Emporium, EUA, 2007) 

         

No mágico empório de brinquedos de Mr. Magorium (Dustin Hoffman), uma crise tem início quando seu dono chega à conclusão que, aos 243 anos de idade, chegou a hora de partir. Ele decide deixar o estabelecimento que administra há quase 113 anos para sua adorável gerente, Molly Mahoney (Natalie Portman), um prodígio no piano quando criança e que agora desconhece o brilho e a magia em si mesma. Para deixar a casa em ordem, Mr. Magorium contrata um cético contador, carinhosamente chamado de Mutante (feito por Jason Bateman, mais conhecido pela série “Arrested Development”), ao mesmo tempo em que precisa lidar com a relutância de Mahoney e da própria loja com relação à sua partida.

         

À primeira vista, este filme pode afugentar o público adulto por ter uma campanha publicitária voltada às crianças, e de fato é uma obra leve, super colorida e divertida. Porém, surpreende por ter várias camadas de leitura, e quem ultrapassar a primeira – e mais óbvia – irá se comover como uma bela fábula acerca da morte, aqui mostrada da forma mais lúdica e otimista possível. Cortesia do diretor/roteirista Zach Helm, que após ter escrito o roteiro de “Mais Estranho que a Ficção”, estréia na direção com outra história original, enxuta e cheia de efeitos especiais, mas sem nunca perder o foco dos personagens e sem pesar demais sua câmera. Seguro a ponto de não deixar escapar sutilezas na composição das cenas, como mostrar todo um diálogo enquadrando somente as mãos de dois personagens e vários outros detalhes que só enriquecem a experiência, Helm ainda consegue abordar com sensibilidade a solidão infantil e a criança dentro de cada adulto, além de mostrar a magia no mundo com uma naturalidade singular. Assista a este filme com a mente e o coração abertos e você terá uma bem-vinda surpresa.

HOMEM DE FERRO * * * *

(Iron Man, EUA, 2008)

 

 

O milionário metido a playboy Tony Stark é seqüestrado no Afeganistão enquanto exibia o mais novo míssil de sua empresa armamentista. Ferido gravemente numa explosão, um ímã é colocado em seu peito com o intuito de impedir que estilhaços em sua corrente sangüínea atinjam seu coração. Obrigado a construir um novo míssil, ele termina fazendo uma armadura de aço para escapar dali. Após ver que suas armas eram desviadas para células terroristas, Stark aprimora a armadura e se volta contra isso, descobrindo que seus verdadeiros inimigos estão mais pertos do que imagina.

         

Quem diria que Robert Downey Jr. fosse dar um Tony Stark de agradar qualquer fã dos quadrinhos, fazendo o espectador realmente acreditar nos potenciais do personagem? E que Jon Fraveau, que, de ator de filmes independentes, comandou “Um Duende em Nova York” e “Zathura”, fosse equilibrar tão bem o humor e a ação contidos no roteiro, tentando ainda ser o mais realista possível? Ou que o roteiro fosse escapar tão bem da exposição comum aos filmes de introdução de franquias de super-heróis, indo direto ao ponto e fazendo sua crítica à política bélica e anti-terrorista dos Estados Unidos? Que o filme fosse ser muito mais empolgante e divertido do que anunciava o trailler? Quem diria que “Homem de Ferro” fosse chegar bem perto de ser um filmaço, derrapando em algumas obviedades que poderiam ter sido evitadas? E que iríamos torcer por sua continuação, ainda mais após conferir a cena que se esconde no fim dos créditos? Quem diria?

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA * * *

(The Texas Chain Saw Massacre, EUA, 1974)

 

Grupo de amigos viajando pelo Texas dá carona a um sujeito muito estranho para logo em seguida ser vítima de um doente mental membro de uma família de canibais, cujos hábitos passam de uma geração para outra.

 

Vai ver este seja mesmo o cult do gênero dos anos 70. Baseado livremente em uma tragédia ocorrida um ano antes no Texas, o cineasta Tobe Hooper, que mais tarde faria “Poltergeist – O Fenômeno”, criou uma atmosfera única de terror e medo, numa fita visivelmente modesta (para não dizer amadora) filmada em 16 mm. Surpreende por ser um filme eficiente e peculiar, tendo gerado diversas imitações. Excessivamente violento, chegando perto de ser gratuito, exige do espectador um estômago forte e nervos de aço, já que os vinte minutos finais são literalmente agonizantes, como poucos vistos no cinema. As respostas emocionais variam do pânico ao riso.

MEDO DA VERDADE * * * *

(Gone Baby Gone, EUA, 2007)

 

Quando a pequena Amanda é seqüestrada dentro da própria casa, causando comoção por entre os habitantes de Boston, um casal de detetives é contratado pela tia da menina para ser uma ajuda a mais à polícia nas investigações. À medida que avançam, tudo indica ser de fato um seqüestro motivado por vingança. No entanto, a verdade envolve razões mais complexas que irão mexer profundamente com todos os envolvidos.

 

Surpreendente estréia na direção do ator Ben Affleck, que também co-assina o roteiro adaptado do livro de Dennis Lehane (“Sobre Meninos e Lobos”). O filme teve sua estréia européia adiada por causa de sua similaridade com o caso da menina Madeleine McCann, e aqui chega às locadoras num momento em que todos se voltam para o caso da menina Isabela. Afora esses tristes detalhes, trata-se de um filme que consegue ser um excelente exercício de suspense policial e ainda levantar questões relevantes acerca da infância e do cuidar dela. Focando a narrativa nos personagens e em suas motivações, Affleck ultrapassa os limites do gênero, quase transformando o filme em um drama contundente sobre as intenções humanas. Seu irmão, Casey Affleck, brilha ao lado de Amy Adams (indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e do resto do elenco de rostos familiares. “Medo da Verdade” é um daqueles filmes que deixam o espectador pensando nele por um bom tempo após assisti-lo. Nada mal para um ator canastrão em seu primeiro trabalho atrás das câmeras.

PONTO DE VISTA * * *

(Vantage Point, EUA, 2008)

 

Durante uma conferência sobre o combate ao terrorismo em Salamanca, Espanha, o presidente dos Estados Unidos é alvejado no momento de seu discurso diante de uma multidão hostil. A trama mostra cinco pontos de vista diferentes do atentado, desdobrando um complexo esquema no qual até mesmo o pessoal da segurança do presidente pode estar envolvido.

 

Este exercício de suspense/ação não traz nenhuma originalidade em sua estrutura narrativa. Outros filmes já mostraram um mesmo acontecimento por meio de várias perspectivas diferentes, como a obra-prima de Kurosawa, “Rashômon”, que, ao contrário de “Ponto de Vista”, se vale mais das interpretações acerca da mesma situação do que do cruzamento de informações que acrescenta detalhes que só se elucidarão no último ponto de vista. Ou seja: jogando todas as pontas para serem amarradas no último ato, é como se os pontos de vista anteriores só tivessem o propósito de chegar a esse fechamento. Em outras palavras: a estrutura narrativa de ficar voltando no tempo por outro ângulo serve apenas como recurso estilístico, já que a trama poderia ser desenvolvida perfeitamente de maneira convencional. De todo modo, resulta num filme eficiente graças à direção do estreante Pete Travis, que tenta dar urgência à seqüência dos fatos e ainda esconder uma ou outra forçada do roteiro do também debutante Barry Levy. O elenco de luxo se encarrega de fazer o resto.

A PEQUENA LOJA DOS HORRORES * * *

(The Little Shop of Horrors, EUA, 1960)

 

Para não ser demitido da loja em que trabalha, um atrapalhado florista leva uma planta exótica que logo se torna a atração do lugar, trazendo mais e mais clientes. O problema é que a tal planta, carnívora, se alimenta de sangue e carne, aumentando de tamanho e se tornando cada vez mais faminta.

 

Este cult do diretor Roger Corman é um prato cheio para os amantes do gênero “terrir”. Possui uma história inusitada e um humor negro de primeira. Famoso por ter sido filmado originalmente em dois dias, passa-se quase por inteiro num único ambiente, a loja do título. Com uma narração de film noir, que termina por brincar com o gênero, foi feito com baixo orçamento e muita criatividade (o filme começa com uma panorâmica do bairro, desenhado num papel, onde a trama acontece). Destaque para a perseguição final no cenário de pneus gigantes e para a hilariante participação de Jack Nicholson em início de carreira.

O PASSADO * * *

(El Pasado, ARG/BRA, 2007)

 

Casal se separa após doze anos. Apesar das dificuldades e dos traumas da separação, ele tenta seguir em frente. Ela, por sua vez, não parece muito disposta a deixar o passado morrer. As dores e os conflitos vão se acumulando ao longo dos anos e marcará a vida de ambos de maneira forte e irreversível.

 

O que separa o amor da obsessão? Até onde duas pessoas conseguem lidar, cada qual à sua maneira, com o fim de um grande amor? Até que ponto se é possível superar um amor do passado, renitente, que insiste em não desaparecer? O quanto uma pessoa pode se destruir por causa disso? Hector Babenco se junta a Gael Garcia Bernal não para responder essas questões, mas para suscitá-las. Nos moldes do atual (e bom) cinema argentino, O Passado passa longe de ser um grande filme, porém tem um quê de amargo que gradativamente vai se tornando mais forte, até percebermos que o destino dos personagens já estava selado desde o início. A narrativa melancólica tenta não apontar vítimas ou vilões, tornando tudo circunstancial, embora não seja difícil projetar certas conclusões.

JUMPER * *

(idem, EUA, 2008)

O apático Hayden “Anakin Skywalker” Christensen continua apático na pele de David Rice, jovem que, após um acidente, descobre ter o poder de se teletransportar para onde quiser. Usando seu poder para roubar bancos e levar uma vida de bon vivant ao redor do mundo (como beber e paquerar em Londres ou fazer piquenique no Egito), e assim fugir do pai opressor, ele logo se torna alvo dos Paladinos, caçadores de Jumpers (saltadores). Com a ajuda de outro com poderes idênticos, David vai ter que enfrentar Roland (Samuel L. Jackson), um cruel paladino que não vai descansar até matar todos os Jumpers.

O diretor Doug Liman (“A Identidade Bourne” e “Sr. e Sra. Smith”) destrói qualquer vestígio do talento demonstrado no início da carreira e se entrega de vez à indústria desperdiçando uma idéia interessantíssima num filme de ação frenético e vazio. Em menos de noventa minutos o roteiro apresenta tantos buracos que fica difícil até mesmo dar crédito às seqüências de ação, que tinham tudo para serem inovadoras. O filme zomba da inteligência do espectador sem ao menos tentar disfarçar isso. O destaque fica por conta de Jamie Bell (“Billy Elliot”, “King Kong”), sem dúvida mais interessante que o herói – ou melhor, anti-herói – e das locações que a produção cobre. Enfim, um passeio turístico de luxo sem um guia competente.

RUMO A UM CINEMA PIAUIENSE (e “cinema” de verdade)

 

Dei uma entrevista num documentário ano passado, dizendo que não existe cinema no Piauí, o que gerou um pouco de polêmica, naturalmente. Na verdade, expressei-me mal. Quis dizer que aqui não existe ainda um cinema piauiense industrializado, ou seja, voltado para o aspecto comercial do ramo, e isso é bem óbvio. Também é óbvio que esse tipo de cinema aqui vai demorar a chegar, pois somos um Estado pobre e confuso, e sinceramente não vejo o governo ou as empresas particulares investindo na produção audiovisual daqui, o que é lamentável e revoltante. Mas isso não impede que a essência do verdadeiro cinema não esteja florescendo por estas bandas. Tem muita gente boa fazendo vídeos muito bons, que pecam apenas pela falta de recursos e incentivos, até mesmo pessoais, de parentes e amigos. Este é o lado ruim de se sonhar em produzir vídeo aqui no Piauí.

 

No entanto, o cenário cinematográfico piauiense está melhorando, embora lentamente e partindo de manifestações artísticas individuais. Prova disso é que há dois anos são lançados filmes piauienses nos cinemas daqui. Todo ano agora temos um ou dois filmes daqui exibidos em nossos cinemas. Só isso é motivo de comemoração e otimismo. Sinto que estamos caminhando positivamente, pois isso nunca aconteceu antes. Não importam quais sejam os filmes, o importante é incutir na cabeça das pessoas essa idéia de que estão produzindo obras audiovisuais em nosso Estado. Esse é o primeiro passo de uma longa jornada rumo à concretização de um cinema piauiense.

        

Desde Cipriano, do Douglas Machado, tivemos exibidos em nossos cinemas, além de dois filmes meus (No Meio do Caminho e Insone), em dois anos consecutivos, O Confidente, do A. José, em 2005, e este ano temos Entre o Amor e a Razão, do Cícero Filho, que não é piauiense, mas está lançando seus filmes aqui. E à medida que o tempo passa, os filmes vão aparecendo cada vez melhores e com mais pretensão, captados em vídeo digital, mas geralmente com narrativa cinematográfica. Isso leva a crer que os próximos anos nos reservam coisas muito boas.

        

Em relação a se é viável ou não fazer cinema no Piauí, isso vai depender de quem está fazendo o filme e do seu estado de motivação. Quem não estiver motivado 150%, vai desistir antes do terceiro mês de captação de recursos. Sei o que estou dizendo, pois estou fazendo um longa-metragem e, mesmo após vários meses indo atrás de dinheiro e já perto do dia de começar as gravações, ainda estamos na correria para contemplar todo o orçamento, que por sinal é muito baixo. Para cada pessoa ou empresa que acredita no que você está fazendo, existem dez ou mais que ou não podem ajudar ou não estão nem aí. Essa é a verdade para quem quer fazer filme neste momento em nosso Estado. O segredo é não desistir, decorar o discurso e ficar esperando horas, dias, meses para ser recebido. Por isso a motivação deve ser alta. Se você passar por esse calvário - e o calor daqui não ajuda em nada -, é quase certeza que consiga fazer seu filme (ainda tem elenco, cronograma, imprevistos, altos e baixos etc.). Eu não vou desistir. Você vai?

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