RUMO A UM CINEMA PIAUIENSE (e “cinema” de verdade)

 

Dei uma entrevista num documentário ano passado, dizendo que não existe cinema no Piauí, o que gerou um pouco de polêmica, naturalmente. Na verdade, expressei-me mal. Quis dizer que aqui não existe ainda um cinema piauiense industrializado, ou seja, voltado para o aspecto comercial do ramo, e isso é bem óbvio. Também é óbvio que esse tipo de cinema aqui vai demorar a chegar, pois somos um Estado pobre e confuso, e sinceramente não vejo o governo ou as empresas particulares investindo na produção audiovisual daqui, o que é lamentável e revoltante. Mas isso não impede que a essência do verdadeiro cinema não esteja florescendo por estas bandas. Tem muita gente boa fazendo vídeos muito bons, que pecam apenas pela falta de recursos e incentivos, até mesmo pessoais, de parentes e amigos. Este é o lado ruim de se sonhar em produzir vídeo aqui no Piauí.

 

No entanto, o cenário cinematográfico piauiense está melhorando, embora lentamente e partindo de manifestações artísticas individuais. Prova disso é que há dois anos são lançados filmes piauienses nos cinemas daqui. Todo ano agora temos um ou dois filmes daqui exibidos em nossos cinemas. Só isso é motivo de comemoração e otimismo. Sinto que estamos caminhando positivamente, pois isso nunca aconteceu antes. Não importam quais sejam os filmes, o importante é incutir na cabeça das pessoas essa idéia de que estão produzindo obras audiovisuais em nosso Estado. Esse é o primeiro passo de uma longa jornada rumo à concretização de um cinema piauiense.

        

Desde Cipriano, do Douglas Machado, tivemos exibidos em nossos cinemas, além de dois filmes meus (No Meio do Caminho e Insone), em dois anos consecutivos, O Confidente, do A. José, em 2005, e este ano temos Entre o Amor e a Razão, do Cícero Filho, que não é piauiense, mas está lançando seus filmes aqui. E à medida que o tempo passa, os filmes vão aparecendo cada vez melhores e com mais pretensão, captados em vídeo digital, mas geralmente com narrativa cinematográfica. Isso leva a crer que os próximos anos nos reservam coisas muito boas.

        

Em relação a se é viável ou não fazer cinema no Piauí, isso vai depender de quem está fazendo o filme e do seu estado de motivação. Quem não estiver motivado 150%, vai desistir antes do terceiro mês de captação de recursos. Sei o que estou dizendo, pois estou fazendo um longa-metragem e, mesmo após vários meses indo atrás de dinheiro e já perto do dia de começar as gravações, ainda estamos na correria para contemplar todo o orçamento, que por sinal é muito baixo. Para cada pessoa ou empresa que acredita no que você está fazendo, existem dez ou mais que ou não podem ajudar ou não estão nem aí. Essa é a verdade para quem quer fazer filme neste momento em nosso Estado. O segredo é não desistir, decorar o discurso e ficar esperando horas, dias, meses para ser recebido. Por isso a motivação deve ser alta. Se você passar por esse calvário - e o calor daqui não ajuda em nada -, é quase certeza que consiga fazer seu filme (ainda tem elenco, cronograma, imprevistos, altos e baixos etc.). Eu não vou desistir. Você vai?

A MÁQUINA (Idem, BRA, 2006) * * * * *

Dir. João Falcão. Com: Gustavo Falcão, Mariana Ximenes, Paulo Autran, Wagner Moura, Lázaro Ramos. 94 min. Romance. DVD.

 

O AMOR É FILME

 

É bem provável que quando você assistir a este A Máquina pela primeira vez, ache-o bobo, brega, exagerado, um tanto fora da realidade e assumidamente piegas. Os cenários são visivelmente falsos (sim, todos os cenários são falsos, mas aqui é de propósito), as atuações caricaturais, os diálogos muito teatrais, ou seja, um filme que assume sua mentira, sua feitura (percebemos de cara que é tudo montado dentro de um estúdio), e escancara isso sem nenhum medo ou sinal de insanidade criativa. Foi feito assim e ponto final.

       

Então, por que diabos você veria este filme uma segunda vez? Respondo: porque se você assume a proposta do filme e entra na brincadeira, vai embarcar com o coração numa linda história de amor sobre uma moça que quer ir para o Mundo e um rapaz apaixonado que, para não perdê-la, resolve trazer o Mundo para ela, chegando ao ponto de arquitetar uma viagem ao futuro para conferir a validade desse Mundo que vai dar de presente. Eu não sei se você terá a mesma reação, mas eu simplesmente me apaixonei pelo filme, dirigido com extrema sensibilidade pelo estreante João Falcão, baseado no romance escrito por sua irmã, Adriana Falcão, e que já havia virado uma peça de teatro.

       

É tudo realmente conceitual e onírico: se você aceita que o amor é um longo e, em sua forma mais otimista, permanente estado de espírito, é fácil comprar a narrativa um tanto lisérgica da produção, onde num só plano vemos dia virar noite e em seguida voltar a ser dia, vendaval se transformar de repente em chuva e querer que abstraiamos a mentira mesmo vendo que tudo o que nos é mostrado é fake, menos a beleza e a ingenuidade da história. A primeira vez que você vê Mariana Ximenes cantando, de fato provoca estranheza e choque, que se dissipa quando você percebe o lado musical assumido do filme (e é difícil tirar da cabeça as interpretações de músicas como Dia Branco e Natureza das Coisas ou não se emocionar com Porque era Ela, Porque era Eu, canção que Chico Buarque fez para o filme e executada num momento sublime da história), aliás ele é todo pontuado por momentos musicais muito bem produzidos (adoro o rápido plano da mulher dançando com uma menina ao som de Dia Branco).

       

Assistindo ao making of, fiquei encantado como todos os envolvidos falam deste trabalho, com uma emoção sincera, e ver um diretor de fotografia super consagrado como Walter Carvalho se emocionar falando da experiência que estava tendo, não somente fazendo a fotografia de um filme, e sim vivendo essa fotografia a cada dia, a cada take, foi comovente. Ele fez um trabalho excepcional ao conferir uma visão artificial, só que executada realisticamente, como se fosse numa locação real, e o horizonte fechado sempre no azul nos faz aceitar que Nordestina (a cidade fictícia onde acontece a história) realmente é isolada do resto do Mundo e não consta nem no mapa.

       

E esse é outro tema magnificamente abordado por A Máquina, a questão do nordestino e seus anseios em querer tentar fazer a vida longe dali, daquele pedaço de lugar nenhum, e ir para a cidade grande, o Mundo, onde acredita que tudo pode acontecer, transformando o filme numa alegoria poética a uma realidade que não é tão colorida assim. Ao mesmo tempo é uma ode ao Amor, levado aqui ao milésimo expoente graças aos diálogos extremamente lapidados concebidos por João e Adriana, que, embora teatrais, não incomodam e até são bem aceitos graças à estrutura narrativa fake do filme, que sem sombra de dúvida foi a opção mais brilhante para salvar a produção de ter sido um novo Lisbela e o Prisioneiro ou qualquer uma das comédias populares de Guel Arraes (não por acaso envolvido na produção desta aqui), sendo que A Máquina é o melhor exemplar do gênero (popular, nordestino, digo) até agora.

       

Todo o elenco está soberbo, deste Gustavo Falcão, Mariana Ximenes (lindamente fotografada), às participações pequenas, porém importantes, de Wagner Moura e Lázaro Ramos, culminando num Paulo Autran excepcional como o narrador da história, uma performance linda e em vários momentos tocante, e suas falas são um deleite ao bom apreciador das palavras. Finalizando, A Máquina é um daqueles filmes que passam por você desapercebidos na locadora, ou até mesmo no cinema, mas que é uma obra muito especial sobre um sentimento que acomete todos os corações do Universo, que fica logo depois do Mundo. Como eu disse, quando você assistir ao filme pela primeira vez, talvez o ache bobo, brega, exagerado, um tanto fora da realidade e assumidamente piegas. Mas o amor não é tudo isso e um pouco mais?

NA CAPTURA DOS FRIEDMANS (Capturing the Friedmans, EUA, 2002) * * * *

Dir. Andrew Jarecki. 107 min. Documentário. TV.

 

Concorreu ao Oscar de 2004 este brilhante e perturbador documentário sobre a tragédia que se abateu sobre a família Friedman quando, no fim dos anos 80, pai e filho foram acusados de abusar sexualmente vários meninos. O problema é que o pai, Arnold, era pedófilo confesso e isso pode ter gerado uma acusação coletiva falsa, como naquele filme, Acusação, com James Woods, em que as crianças estavam todas mentindo. Ou não. O fato é que, além de ser neutro e mostrar os dois lados da história, o filme se concentra em ser um registro genial do desfacelamento de uma família em meio a tempos difíceis, resultando numa experiência forte, real e singular. Com uma boa dose de sorte (todo o processo foi documentado em vídeo pelos filhos, todas as brigas e angústias!) e um excelente senso narrativo, o diretor Andrew Jackeri fez um desses filmes que, não importa o gênero, é polêmico e marcante e que provavelmente deve ser visto mais de uma vez. Levanta questões fortes sem tomar partido e não tenta responder nada, apenas mostrar. Suscetível a debates e difícil de esquecer (principalmente pela personagem da mãe, a grande inconformada com a verdade sobre o homem com quem passou trinta anos casada, tendo por causa disso sido rejeitada pelos filhos), Na Captura dos Friedmans é um programa imperdível acerca de uma família disfuncional e dos obscuros segredos do ser humano.

 

                                                                      

A MULHER PROIBIDA (Forbidden, EUA, 1932) * * *

Dir. Frank Capra. Com: Barbara Stanwyck, Adolphe Menjou, Ralph Bellamy. 83 min. Drama. TV.

 

Filme menor de Capra, antes do Oscar por Aconteceu Naquela Noite (1934) e bem antes de ter feito um dos meus filmes de cabeceira, A Felicidade Não se Compra (1946). Não é um filme de todo ruim, pelo contrário, possui boa história, dele mesmo, e boas atuações. O problema é que é um filme difícil de se ver e gostar efetivamente, pois é uma história triste, às vezes levada ao extremo, com um desfecho mais melancólico ainda. Capra é mais lembrado por sua visão otimista do mundo, dando valor aos pequenos detalhes da vida, sendo suas melhores obras um remédio para qualquer tristeza ou depressão, sempre enaltecendo o amor puro e a família. Aqui ele conta a história de uma mulher resignada (a ótima Barbara Stanwyck, de Uma Vida por um Fio, de 1948) que renega a própria vida e felicidade para ser a amante oculta de um advogado com grandes aspirações políticas, nunca sendo completa de fato, inclusive chegando ao ponto de dar a filha para ele e sua esposa criarem fingindo ser babá da menina, tudo para que o escândalo não prejudique a carreira pública do amado. Após os fatos todos se estabelecerem, a direção fica meio pesada e não consegue passar uma emoção maior para o espectador, além de um retrato triste da vida de personagens que nunca serão felizes. O humor tenta atenuar um pouco a carga pesada do filme e o roteiro nunca se aprofunda verdadeiramente em nenhum personagem. Não vemos o sofrimento interno que naturalmente se abate sobre cada um deles. Quando o drama toma conta no último ato, vemos a protagonista tomar uma atitude desesperada e extrema, e ficamos em dúvida se foi pelo amado (Menjou, sob medida, mas um tanto feio para ela) ou pela filha. Talvez pelos dois. Talvez por nenhum, apenas para alimentar sua baixa auto-estima e sua incapacidade de ser feliz de verdade. O último gesto dela parece corroborar este meu pensamento. Ou quem sabe represente mesmo uma coerência ao amor devotado e autêntico. Em todo caso, um final insatisfatório, que nos deixa tristes e vazios. Posso estar cometendo uma injustiça, mas este não é o Frank Capra que eu conheço. Não o que termina este filme.

DANÇA COMIGO? (Shall We Dance?, EUA, 2004) * * *

Dir. Peter Chelson. Com: Richard Gere, Susan Sarandon, Jennifer Lopez, Stanley Tucci, Bobby Canavale. 106 min. Drama. TV.

 

Mesmo não sendo nada memorável, passa longe de ser ruim este remake norte-americano de Shall We Dansu?, premiadíssimo filme japonês de 1996. É sobre um homem infeliz e meio que entediado com a vida (Gere, que a essa altura dificilmente vai deixar de ser um ator mediano) que se redescobre tomando aulas de dança de salão escondido da família (Susan Sarandon faz a esposa que desconfia que o marido esteja tendo um caso), a princípio atraído pela bela e triste personagem de Jennifer Lopez, depois tomando realmente gosto pela dança. O roteiro segue um caminho certamente planejado para desaguar num lugar-comum e garantir seu público, no caso, as mulheres. Talvez isso explique o fato de a esposa ganhar mais destaque nesta versão e Gere e Lopez não chegarem a ter um caso de fato. Apesar disso, o filme e cresce vale a pena graças aos divertidos personagens coadjuvantes, que em certos momentos parecem mais trabalhados do que os próprios protagonistas, prova de que o roteiro não possui a segurança e a consistência para desenvolver sua premissa do ponto de vista ocidental sem se apoiar em soluções fáceis, no caso os alívios cômicos. Mesmo que a idéia de uma crise de meia-idade (no original seria a repressão da sociedade) termine ficando em segundo plano, e o filme não saiba direito se é drama, romance ou sobre a libertação/redescoberta por meio da dança, a direção certinha de Peter Chelson (Escrito nas Estrelas, com John Cusack) tenta encobrir – ou seria ignorar? – as falhas do roteiro cativando o espectador com uma história simples e até agradável de se ver (poderia ter ao menos uma coreografia mais marcante). Nada memorável, já disse, mas ao menos a gente sai do filme feliz e com uma incrível vontade de dançar, que logo passa.

 

                                                                     

PACTO MALDITO (Mean Creek, EUA, 2004) * * *

Dir. Jacob Aaron Estes. Com: Rory Culkin, Ryan Kelley, Scott Mechlowicz, Trevor Morgan, Josh Peck, Carly Schroeder. 90 min. Drama. DVD.

 

Infelizmente, chegamos a um ponto em que idéias originais são como água no deserto. 90% dos filmes atualmente contam histórias já contadas n vezes e abordam temas já abordados até a exaustão. É a conseqüência de o cinema ser uma arte popular (ainda que não tão popular assim, se é que você me entende). O que acontece é que vemos as mesmas histórias e os mesmos temas sob pontos de vistas diferentes e nos acostumamos a apreciar isso, caso o contrário a arte morre. Bem, foi a essa conclusão que cheguei após conferir este Pacto Maldito, que não traz nada de novo, mas que consegue ser uma experiência bem interessante, principalmente se você não espera nada do filme. Vencedor do Prêmio John Cassavetes (dado ao melhor filme feito por até RS$ 500.000) no Independent Spirit Awards de 2005, começa como uma brincadeira de vingança contra o valentão da escola e termina se tornando uma coisa séria e sem volta. A sacada do diretor e roteirista Estes foi gastar metade da duração do filme como se fosse um Conta Comigo ou algo do gênero, bem despretensioso, com primeiros encontros, passeios de barcos e jogos da verdade, para só então ocorrer a reviravolta (prevista desde o início, diga-se de passagem) e o filme mudar de tom e o texto ficar mais interessante, principalmente a narração final. O pensamento é: “Como esse ou aquele diretor lidaria com essa ou aquela situação?”; e Estes tem consciência de que seu filme é pequeno e independente, cujo nome mais conhecido é o de Rory Culkin (o garotinho de Sinais) e não viaja demais, pendendo para o lado realista da situação, ao contrário dos grandes filmes de estúdio. Esta não é uma daquelas sessões extraordinárias, mas dá bem para o gasto. Experimente. Você pode até gostar.

 

                                                                     

UMA CRUZ À BEIRA DO ABISMO (The Nun’s Story, EUA, 1959) * * * *

Dir. Fred Zinnemann. Com: Audrey Hepburn, Peter Finch, Edith Evans, Peggy Ashcroft. 151 min. Drama. DVD.

 

Indicado a 8 Oscars, incluindo filme, diretor e atriz para Audrey Hepburn (ela ganhou o BAFTA de Melhor Atriz Britânica), Uma Cruz à Beira do Abismo é um dos pouquíssimos filmes já feitos que se dispõem a tentar retratar realisticamente o cotidiano e os conflitos das mulheres que, por algum motivo, resolvem entrar para o convento e virarem freiras. Não sei até que ponto o filme retrata com fidelidade todo o processo até uma noviça se tornar realmente freira (ainda não consegui maiores informações sobre a autora do livro no qual o filme se baseia, Kathryn Hulme), mas acredito que pelo fato de ser gasto mais de uma hora apenas enfocando isso deve haver uma base realista para tudo ser mostrado com segurança, inclusive os rituais e as provações pelas quais as candidatas passam. Seja como for, achei tudo fascinante e conduzido com maestria por Zinnemann, com a ajuda de uma excelente Audrey Hepburn, que consegue passar toda a angústia de seguir um estilo de vida que visivelmente não lhe condiz. Não que ser freira ou padre deva ser algo necessariamente conflituoso, pelo contrário, mas é muito interessante ver alguém que entra no convento pelos motivos errados passar por tal experiência de tentativa de reencontro consigo mesma, e só entendemos verdadeiramente a psique (ou parte dela, naturalmente) da personagem na última cena, quando ela repete o gesto da primeira cena e fecha o seu arco dramático sem, contudo, resolver seus problemas internos, mesmo por fim aceitando não quem é, e sim quem ela não é. Com duas horas e meia de duração, um tanto longo para a história, consegue manter a atenção e o interesse, fazendo o espectador entrar na fantasia e sofrer os mesmos dilemas e conflitos da protagonista. Excelente sacada mostrar todo o transcorrer da 2ª Guerra Mundial somente através de planos de árvores mortas, sem mostrar a guerra realmente, o que é uma aula de cinema. Finalizando, entre os pontos positivos e negativos, este filme se sai como uma ótima reflexão sobre o quanto de fé há em cada um de nós.

 

                                                               

SYRIANA – A INDÚSTRIA DO PETRÓLEO (Syriana, EUA, 2005) * * * ½

Dir. Stephen Caghan. Com: Matt Damon, George Clooney, Jeffrey Wright. 126 min. Drama. DVD.

 

O filme que deu o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para George Clooney, que engordou e está um tanto diferente do perfil de galã que o lançou ao estrelato. Mais do que isso, trata-se de um filme-denúncia (no caso aqui, as empresas petrolíferas e suas influências ao redor do mundo) pungente e interessantíssimo. Escrito e dirigido pelo talentoso e premiado roteirista de Traffic, a estrutura narrativa em tramas paralelas que se convergem requer maior atenção por parte do espectador e o filme não dá nenhuma colher de chá visual, como fez Soderbergh no filme citado, para situar cada história, uma decisão ousada e segura de Caghan. Muito bem escrito, cheio de meandros sutis e subtextos para análise mais profunda (o roteiro chegou a ser indicado ao Oscar), Syriana possui alguns pontos não convincentes ou tratados superficialmente (culpa de se ter várias histórias juntas) e se entrega a um desfecho bem resolvido, porém previsível; tirando esses detalhes, possui diálogos irretocáveis e levanta questões extremamente relevantes acerca de como o poder da influência gere o mundo e o impede de progredir efetivamente. Não chega a se igualar emocionalmente a um O Jardineiro Fiel ou um O Informante desses da vida, porém acerta em seu estilo setentista de cutucar uma ferida social sem apontar necessariamente um culpado direto. Somos nós que temos que entrar no debate que o filme levanta e chegar a uma conclusão. Ou pelo menos tentar.

 

                                                                        

O GRANDE MOTIM (Mutiny on the Bounty, EUA, 1935) * * * ½

Dir. Frank Lloyd. Com: Charles Laughton, Clark Gable, Franchot Tone, Movita, Dudley Digges. 132 min. Aventura. P&B. DVD.

 

Ainda que o motim do título aconteça só após mais da metade da história (até como forma de fazer com que o espectador se sinta parte da tripulação do navio e fique de fato revoltado com a tirania do capitão, muito bem interpretado por Laughton), vale a pena ver e rever este clássico do cinema de aventura marítima que recria com muita eficiência o motim ocorrido no HMS Bounty, o mais famoso da história da Marinha Britânica, no século XVIII, e que proporcionou a mudança na relação entre superiores e subordinados em um navio. Bom ritmo, apesar de um pouco longo, e boas seqüências, além de excelentes interpretações, tornam este filme um prato cheio para quem gosta de uma boa aventura à moda antiga, vencedora do Oscar de Melhor Filme, sendo a única a ter três indicações ao mesmo tempo para melhor ator – Laugton, Gable e Tone. Hoje, trata-se de um gênero em tentativa de renovação, e o mais bem-sucedido filme neste sentido foi Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra. Existe um remake de 1962 com Marlon Brando, mas este aqui é que o clássico, em todos os sentidos.

 

                                                                     

AGORA SEREMOS FELIZES (Meet Me in St. Louis, EUA, 1944) * * * *

Dir. Vincent Minnelli. Com: Judy Garland, Margaret O’Brien, Mary Astor, Lucille Bremer, Leon Ames, Joan Carroll. 113 min. Musical. DVD.

 

Este seria o musical que inauguraria a época de ouro de Hollywood e, sobretudo, da Metro. Trata-se de um filme delicioso, bem conduzido e com grande direção de arte. Possui apelo nostálgico para o público norte-americano por reproduzir a Feira Mundial ocorrida em Louisiana em 1904. Para nós, traz uma história simples, familiar, de cotidiano, mas muito prazerosa de se ver. Judy Garland não queria o papel da mocinha apaixonada a princípio, mas foi convencida pelo diretor Minnelli, com quem se casaria logo em seguida. O destaque são mesmo as músicas que não interrompem o fluxo da história, e sim ajudam a levar o filme adiante (há três famosas: “The Boy Next Door”, “The Trolley Song” e a inesquecível e hoje referência natalina “Have Yourself a Merry Little Christmas”) e a interpretação da então garotinha Margaret O’Brien como Tootie, uma das melhores coisas do filme e que lhe valeu um Oscar especial. A cena em que ela destrói os bonecos de neve após a última canção citada é verdadeiramente comovente, assim como o casal adulto da história cantando “You and I”, após uma discussão em família, enquanto os filhos se aproximam e se servem do bolo – talvez a melhor cena do filme. Para os amantes do gênero, Agora Seremos Felizes é um clássico que não deve passar em branco.

 

                                                                     

DOSE DUPLA

 

A DAMA DAS CAMÉLIAS (Camille, EUA, 1936) * * * *

Dir. George Cukor. Com: Greta Garbo, Richard Taylor, Lionel Barrymore, Elizabeth Allan. 109 min. Romance. P&B. DVD.

 

Greta Garbo está soberba como a cortesão parisiense que se apaixona por um homem sem dote e por causa disso vai ter sua vida arruinada. Verdadeiro clássico romântico baseado em obra de Alexandre Dumas, filho, aqui em sua versão mais famosa. O filme parece ter sobrevivido bem ao tempo, e a ótima qualidade da cópia digital favorece sua redescoberta, provando o ótimo texto que possui (algumas frases da personagem são impagáveis ditas por Garbo, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por este filme e ganhou o prêmio dos críticos de Nova York) e o desenvolvimento sem maiores repreensões. A história vai crescendo aos poucos e logo nos pegamos fisgados por ela, literalmente. A cena final é extremamente comovente e bem realizada, capaz de levar os mais sensíveis às lágrimas.

 

A DAMA DAS CAMÉLIAS (Camille, EUA, 1921) * * * *

Dir. Ray C. Smallwood. Com: Alla Nazimova, Rudolph Valentino, Rex Cherryman, Arthur Hoyt, Patsy Ruth Miller. 70 min. Romance. P&B. DVD. 

 

Esta versão “muda” (o correto seria dizer “silenciosa”) da trágica história de Alexandre Dumas, filho, que foi popularizada 15 anos depois com a interpretação de Greta Garbo, é igualmente bem-sucedida, embora hoje em dia tenha maior rejeição por parte do público médio e até mesmo dos cinéfilos (os filmes silenciosos são vistos cada vez mais raramente, quando não são títulos de importância para a história do cinema, o que é uma pena). Prima por acentuar o clima melancólico em torno da personagem, graças a uma montagem certeira que está sempre mostrando a indiferença dos outros para com sua solidão e sua doença, e até consegue dizer mais sobre seu espírito libertino, mostrando cenas de beijo entre ela e a personagem Nichette (na versão com Garbo, há apenas apenas um selinho inocente, mas nada sugerido como aqui), o que certamente era ousado para a época – mas isso foi muito antes da hipocrisia norte-americana invadir o cinema. Bem condensado e realizado (a direção de arte chama a atenção), este é um filme que merece ser visto também.

 

                                                                           

TRÊS FILMES

O MUNDO DE JACK E ROSE (The Ballad of Jack and Rose, EUA, 2005) * * * ½

Dir. Rebecca Miller. Com: Daniel Day-Lewis, Camille Belle, Catherine Keener, Ryan McDonald, Paul Dano, Jena Malone. 112 min. Drama. DVD.

Um drama denso e ao mesmo tempo estranhamente belo sobre a desconstrução de uma ideologia e um relacionamento complexo entre pai e filha. A ótima construção narrativa de Rebecca Miller (casada com Daniel Day-Lewis e filha do famoso dramaturgo Arthur Muller) torna este filme mais interessante do que aparenta ser, apoiada ainda por grandes performances de todo o elenco. Por vezes psicologicamente complexo, resulta poético sobre o fim de um mundo particular. Vale uma conferida com bastante atenção e abertura.

 

IMPULSIVIDADE (Thumbsucker, EUA, 2005) * * *

Dir. Mike Mills. Elenco: Lou Taylor Pucci, Tilda Swinton, Vincent D’Onofrio, Reanu Reeves, Benjamin Bratt. 96 min. Drama. DVD.

Sem dúvida uma sacada original para falar dos problemas da adolescência. Mas fala sobre diversas outras coisas também, como o pai frustrado, a mãe infeliz, a competição dentro e fora de casa. Enfim, uma fita interessante, com título nacional que pode levar a uma mal-interpretação do filme (e que também afasta as pessoas do interesse em vê-lo. Além do mais, o ato de chupar o dedo do protragonista é uma COMPULSÃO provocada pela ansiedade! Alguém devia demitir a pessoa que traduziu o título). Não chega a ser memorável – e Keanu Reeves está canastrão como o dentista/psicólogo/esportista –, mas pelo menos toca em assuntos relevantes para o espectador que está atravessando a metade final da adolescência. E de maneira até mesmo inusitada.

 

A MORTE PEDE CARONA (The Hitcher, EUA, 1986) * * * ½

Dir. Robert Harmon. Com: C. Thomas Howell, Rutger Hauer, Jennifer Jason Leigh. 97 min. Suspense. DVD.

Inesperado êxito dos anos 80, este filme realmente surpreende a quem não espera muita coisa. Tenso do início ao fim, o filme logo diz a que veio e não pára mais, com competente direção que tenta atenuar os buracos do roteiro enfocando, e trabalhando bem, diga-se de passagem, o relacionamento interessante entre o herói e o vilão. Lembra muito Encurralado, de Spielberg (as auto-estradas norte-americanas desertas e tudo abandonado, como Stephen King também gosta de retratar), embora seja uma história diferente, e possui seqüências de prender o fôlego. Rutger Hauer, no auge da carreira, está absolutamente sádico e trágico, assustador mesmo, na pele do impagável John Ryder, sem dúvida um dos grandes vilões do gênero. Enfim, um programa indispensável para quem quer passar 1h30 literalmente grudado no sofá.

 

                     

PALAVRAS DE AMOR (Bee Season, EUA, 2005) * * *

Dir. Scott McGehee e David Siegel. Com: Richard Gere, Juliette Binoche, Flora Cross, Max Minghella, Kate Bosworth. 104 min. Drama. DVD.

 

A trama sobre a qual gira o filme, a competição de soletrar, pode não ter nenhum atrativo para o espectador brasileiro, já que esta não é uma prática comum no Brasil (nos Estados Unidos é tradição), mas certamente os temas que decorrem disso vão emocionar muita gente. Na verdade, o roteiro segue com fidelidade a simbologia da história, que seria a fragmentação e a reconstrução do mundo em cima disso (partindo de um conceito judaico chamado “tikkun olam”: o conserto do mundo), então demora quase o filme inteiro para organizar as peças e dizer a que veio. É sobre a família e como cada membro tem seus próprios segredos, e, sobretudo, trata-se da busca pelo equilíbrio perdido, seja por qual motivo, conseqüentemente uma jornada em busca de Deus, de divindade, de paz interior. Cada personagem tem sua jornada desenvolvida, a da mãe é com certeza a mais obscura e só se explica no ato final. A menina com o dom de soletrar (a caçula da família, interpretada bem pela estreante Flora Cross) seria o catalisador dessas jornadas, que de certa forma vão fragmentando ainda mais a família, por isso faz sentido o seu gesto final, como uma maneira de parar esses processos iniciados e tudo voltar a ser como era. Enfim, Palavras de Amor é um filme aparentemente simples, mas que requer atenção para uma boa compreensão sobre o que ele quer nos passar. Às vezes, nossas buscas individuais podem nos separar de vez das pessoas que amamos.

 

                                                                      

ZONA DE RISCO (Gongdong Gyeongbi Guyeok JSA, CS, 2000) * * * *

Dir. Chan-wook Park. Com: Yeong-ae Lee, Byung-hun Lee, Kang-ho Song, Tae-woo Kim, Ha-kyun Shin. 110 min. Drama. DVD.

 

Antes de se consagrar mundialmente com Oldboy, o cineasta sul-coreano Chan-wook Park já demonstrava talento, e muito, com este drama singular sobre amizade em tempos de guerra. O filme acontece bem na zona militar que separa a Coréia do Sul capitalista e a Coréia do Norte comunista. Falar mais da trama propriamente dita (tudo gira em torno de dois assassinatos) seria estragar uma experiência interessantíssima acerca da quebra da neutralidade e do separatismo, conduzida com incrível habilidade por Park, que desenvolve a história através de camadas e fica indo e voltando no tempo com facilidade e sem grandes perdas. Mesmo não sendo didático, a obra dá uma boa pincelada para a compreensão do conflito entre as duas Coréias, o que a engrandece e a contextualiza para os mais desinformados. Cheio de meandros e reviravoltas sutis, porém significativas, Zona de Risco chega a ser complexo ao falar dos sentimentos que podem unir ou separar as pessoas e que estão acima de conceitos ou ideologias introjetadas. Pode acreditar, assim como Oldboy, o filme fica um bom tempo ecoando na cabeça do espectador.

                                                                                         

O DESTINO DO POSEIDON (The Poseidon Adventure, EUA, 1972) * * * ½

Dir. Ronald Neame. Com: Gene Hackman, Ernest Borgnine, Red Buttons, Carol Lynley, Shelley Winter. 117 min. Aventura. DVD.

 

Considerado pelos críticos como um dos melhores exemplares de “filmes-catástrofe”, subgênero de aventura que reinou na década de 70, O Destino do Poseidon se sobressai por nunca perder o enfoque nos personagens, mesmo diante da arrojada e complicada (para a época) produção, graças à direção competente de Donald Neame. A trama é simples, como manda as regras do subgênero – na virada do ano, maremoto vira o transatlântico de ponta-cabeça e um grupo de pessoas, lideradas por Gene Hackman, vão tentar sobreviver –, porém o filme consegue prender a atenção do espectador até o final, graças também à excelente direção de arte (é interessante ver os sets, com todos os seus detalhes, de cabeça para baixo) e aos efeitos especiais ganhadores de um Oscar especial (o momento da “onda gigante” virando o navio funciona e chega a ser surpreendente). Trata-se de um filme escapista e como tal cumpre o que promete. O elenco cheio de astros (marcou o retorno dos filmes filmes, com grande elenco, orçamento e uma história apelativa - não no sentido pejorativo -, o que hoje são as produções blockbusters), no qual Shelley Winters rouba a cena, tendo sido inclusive indicada ao Oscar de atriz coadjuvante (levou o Globo de Ouro), ajuda a ligar emocionalmente o espectador à história e dá-la veracidade. O filme ganhou também o Oscar de canção, por “The Morning After”. Hackman, mesmo não estando particularmente excepcional, chegou a ganhar o BAFTA como melhor ator. O diretor Wolfgang Petersen (o mesmo de O Barco – Inferno no Mar e Mar em Fúria, citando os óbvios) comandou o remake, com Kurt Russell e Richard Dreyfuss no elenco.

 

                                                                     

RETRATOS DE UMA OBSESSÃO (One Hour Photo, EUA, 2002) * * *

Dir. Mark Romanek. Com: Robin Williams, Connie Nielsen, Michael Vartan. 95 min. Suspense. Cinema.

 

Sy Parrish é um pacato e aparentemente inofensivo revelador de filmes fotográficos de um supermercado obcecado pela família de uma mulher que é sua cliente há vários anos. Sua estrutura de perfeição começa a ruir quando é demitido por gastar muito negativo e descobre que o marido de Nina, a cliente e parente idealizada, tem uma amante. A partir de então, Parrish torna-se um perigo em potencial. O problema de Retratos de uma Obsessão é que pode ser facilmente confundido com um grande filme, graças à mão certa e metódica do diretor e roteirista Mark Romanek. Não quer dizer, entretanto, que seja uma obra ruim. Pelo contrário, supera a média e provoca em nós sentimentos e emoções que a grande maioria dos filmes norte-americanos não consegue fazer. É um suspense (ou pelo menos uma tentativa de ser um) que não cai na tentação de virar um thriller, o que já vale muita coisa. A fita mantém uma postura cerebral da primeira à última cena. Robin Williams tem aqui uma de suas melhores interpretações dos últimos anos como o “psicopata light” Sy Parrish, aquela pessoa que passa por nós todos os dias sem nunca chamar atenção e que um dia se revela obsessiva e perigosa, como realmente é. A construção psicológica do personagem é o melhor do filme: ele vive na solidão e para suportar isso fantasia ser parte da família da personagem de Connie Nielsen (Gladiador), que por sinal também está muito boa. Romanek construiu um roteiro enxuto e interessante, porém acaba perdendo a oportunidade de conceber uma obra-prima ao cometer certos deslizes, como antever o final e ter medo de levar o personagem ao extremo. Além disso, ele conduz o filme acompanhando duas perspectivas — o de Parrish e o de Nina — e às vezes desfoca uma, esquecendo-se dela, o que frustra um pouco. Porém, o desenvolvimento da fita é bárbaro, com uma estética bem planejada (a trilha composta por Reinhold Heil e Johnny Klimek chega a causar um discreto nervosismo em certos trechos, assim como a meticulosa montagem de Jeffrey Ford), embora a reação de alguns personagens seja estranha. A obra tenta conter ao máximo o sentimentalismo e por isso tem uma estrutura límpida, quase hospitalar (ponto para a fotografia de Jeff Cronenweth, de Clube da Luta). Tecnicamente impecável, Retratos de uma Obsessão nunca chega a um clímax propriamente dito e erra ao tentar explicar Sy Parrish de maneira simplista e banal. Chega bem perto de ser um excelente estudo sobre a personalidade anti-social e as conseqüências psicológicas da solidão, assim como a transferência, tudo isso parcialmente banalizado no desfecho. Apenas resulta num filme que podia ser de fato perturbador, mas que termina se revelando vazio e trivial.

 

                                                                      

A ÚLTIMA CEIA (Monster’s Ball, EUA, 2001) * * * *

Dir. Marc Forster. Com: Billy Bob Thornton, Halle Berry, Peter Boyle, Heath Ledger. 112 min. Drama. DVD.

 

Numa cidadezinha sulista dos Estados Unidos, viúva de um condenado à morte tem o caminho cruzado com o do guarda penitencial que chefiou a execução de seu marido. Os dois vivem uma intensa paixão, mas o passado e o preconceito não tardam a vir à tona. A Última Ceia é um filme forte, de grande importância e relevância, pois foi o que rendeu o primeiro Oscar de Melhor Atriz a uma negra em toda a história do prêmio. E não por menos. Trata de temas e tabus delicados e pungentes, mas é na densa e corajosa interpretação de Halle Berry (X-Men – O Filme, A Senha: Swordfish e nunca tão bonita) que a obra encontra sua força motriz. Dramática na medida certa e extremamente coerente, ela comove sem apelos fáceis e prova ser merecedora do título. Billy Bob Thornton, indicado ao Globo de Ouro, também bilha — e como — num papel humano e difícil de digerir. Os dois protagonizam uma cena de sexo tórrida e duelam energias distintas. O sueco Forster fez um filme obrigatório e bonito, onde os sentimentos são subjetivos e os norte-americanos são figuras estranhas. O roteiro de Milo Addica e Will Rokos (indicado a melhor roteiro original) é espetacularmente conciso, trágico, verdadeiro, com cenas poderosas e personagens buscando uma ressurreição nas cinzas. O filme discute muito bem a culpa, o ódio, o preconceito racial e, claro, o amor. Choca e emociona em doses equivalentes, sem sair nunca da naturalidade. Por vezes frio e inquietante, é uma experiência totalmente apta a um estudo mais profundo e indispensável para o nosso espírito melancólico.

 

                                                                    

X-MEN: O CONFRONTO FINAL (X-Men: The Last Stand, EUA, 2006) * * * 1/2

 

CONFRONTO FINAL? NÃO SEI, NÃO.

 

E tudo que tem um começo, tem um fim, não é mesmo? Tudo. “Matrix”, “O Senhor dos Anéis”, “Star Wars” (este sim demorou), ano que vem talvez “Homem-Aranha”, a vida... Essas coisas acontecem. Não podemos fazer nada a respeito. Sendo assim, foi com essa sensação que entrei na sala 3 dos Cinemas Teresina para conferir a estréia mundial de “X-Men: O Confronto Final”, a terceira e última parte da suposta trilogia iniciada por Bryan Singer há seis anos.

            

Entretanto, eu já devia saber que Hollywood não desiste fácil de suas franquias rentáveis, e que se há três anos eu podia jurar de pé junto que “X-Men” seria uma das melhores trilogias já feitas, pelo menos a que possui uma mensagem social verdadeira contundente (as minorias, o preconceito, o ser diferente), hoje eu não arrisco mais abrir minha boca para prever o futuro, uma vez que ele não existe. Singer driblou o destino, e nossas expectativas, mudando de HQ (“Superman Returns”). O camaleão Brett Ratner assumiu o comando, e tem aqui a oportunidade de finalmente fazer com que o público decore seu nome. Sempre transitando por entre diferentes gêneros, fazer um filme dos X-Men seria apenas mais um trabalho em seu currículo colorido. Nada demais.

            

Aí é que está o primeiro problema deste “Confronto Final”: Ratner não imprime personalidade alguma em sua direção. Faz tudo direitinho como se estivesse estudado com afinco o trabalho de seu antecessor. Pode até ter sido uma decisão sofisticada da parte dele, mas eu senti que isso custou ao filme um pouco mais de emoção e que várias coisas trabalhadas com cuidado por Singer são finalizadas por Ratner sem a devida importância, como o relacionamento entre Xavier e Magneto, que eu adoro. Eles não são inimigos, como muitos podem crer, e sim velhos amigos com pontos de vista diferentes. Quando algo terrível acontece com o primeiro, não vemos de Magneto a reação que ele deveria ter diante do fato, a não ser uma única linha de diálogo pela qual o roteiro se dá por satisfeito em relação a esse ponto.

            

Aproveitando a deixa, ao mesmo tempo em que o roteiro é extremamente bem sucedido ao apresentar sua trama – a descoberta da cura para a mutação – e levantar um debate relevante acerca da condição dos mutantes, que agora têm uma possibilidade de escolha entre continuar sendo mutante ou não, o que certamente engrandece o texto e torna o filme único em meio à série, a minha sensação num plano geral foi de que o roteiro ia apenas queimando etapas e se livrando logo dos personagens que deveria descartar nesta terceira parte, alguns de forma banal e insatisfatória e outros com toda a pampa que mereciam ter. Continua acertando ao tratar a mutação dentro de um contexto sócio-cultural, falando assim de preconceito, intolerância e medo de não ser aceito pela sociedade, e permanece fiel aos anteriores, embora a princípio se perceba que o único arco dramático que parece elaborado e seguido no decorrer dos três filmes é a história de Jean Grey/Fênix, aqui uma das tramas centrais. Paradoxalmente, depois de definir seus eventos, o roteiro deixa a personagem um bom tempo apagada, estacionada ali como uma figurante, apenas aguardando seu momento final.

 

       

X-MEN: O CONFRONTO FINAL - continuação

 

 

Um dos pontos altos do filme é proporcionar ao público uma incrível variedade de novos mutantes e poderes, que servem direitinho para os propósitos do roteiro, ou seja, eles só aparecem mesmo no momento em que realmente precisam, como é o caso do Anjo, do Fera e de alguns vilões. Tudo bem amarrado, mas que deixa a sensação de que não foram explorados como personagens reais (em “X-Men 2” há uma cena rápida entre Mística e Noturno que ilustra o que estou dizendo), e sim estão ali apenas para agradar o público. Tempestade mais uma vez ganha um novo penteado (a impressão que dá é que nunca chegaram a um consenso quanto ao look da personagem), Wolverine continua o herói, só que sem o desejo de desvendar mais seu passado (deixaram para o seu filme-solo), e Ciclope, que vinha diminuindo de presença gradativamente ao longo da série, é o mais prejudicado aqui, fazendo quase uma participação especial. Felizmente, Magneto continua o grande vilão do filme, e Sir. Ian McKellen sabe como se divertir com o personagem, apesar do roteiro colocar umas frases idiotas na sua boca, e aqui vai finalmente dar cabo ao seu desejo de declarar guerra à humanidade, previsto desde o primeiro filme, usando como desculpa a perspectiva da cura como arma contra os mutantes para formar sua milícia e dar o primeiro passo concreto rumo a uma guerra civil.

            

“X-Men: O Confronto Final” é um filme acima da média, mas ambivalente. Tem uma trama relevante e de certa forma complexa, que faz a gente querer discuti-la, mas por outro lado é uma obra enxuta demais, sendo que tinha plenas condições de proporcionar um espetáculo maior, dando mais atenção aos personagens. Os efeitos especiais são incríveis, talvez os melhores da série, e o confronto reunindo todo mundo no último ato, na ilha de Alcatraz, realmente empolga, levando a crer que seria de fato o confronto final que encerraria a suposta trilogia mutante. Porém, como eu deveria (não) ter imaginado, o epílogo deixa brechas para possíveis continuações. Talvez não com os personagens que enfim conhecemos em carne-e-osso, mas com uma nova geração que serviu de figuração nesses três primeiros filmes. Sim, três primeiros filmes. Ou você, assim como eu, achou que Hollywood iria se livrar assim tão fácil de uma de suas franquias mais rentáveis?

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                   29 de maio de 2006

 

        

SR. TRAPO (Idem, ESP, 2002) * * * *

Dir. Raul Díez. 12 min. Curta-metragem. TV.

 

Belíssimo curta de animação espanhol, vencedor do Goya. Visualmente estiloso, a direção de Raul Díez é extremamente sensível e a fotografia é simplesmente arrasadora. Não queria falar da história, pois este é um filme mais para se sentir, mas posso dizer que é sobre um sujeito, que é mais um boneco de pano velho, torto e cansado (um trapo mesmo, como sugere o título), numa estação de trem há muito esquecida, assim como ele. Escrito por Raul em parceria com o irmão, Anton, sem dúvida um dos curtas-metragens espanhóis mais interessantes que já assisti. Apto a várias ponderações, é contemplativo até a raiz, falando com poesia visual sobre abandono, esquecimento e solidão.

UM GOLPE DO DESTINO (The Doctor, EUA, 1991) * * *

Dir. Randa Haines. Com: William Hurt, Christine Lathi, Elizabeth Perkins. 122 min. Drama. Vídeo.

 

Cirurgião descobre que tem um tumor na garganta e de repente se vê na condição de paciente. Começa, então, a rever seus conceitos profissionais e seu modo de encarar a vida. O filme fica o tempo todo tentando escapar do melodrama, com certa competência, e acaba se saindo uma boa experiência de humanização, tanto a nível profissional quanto pessoal. A trama paralela do processo não é bem trabalhada para o público de fora dos Estados Unidos (porque lá os hospitais são processados a todo momento, já é algo rotineiro) e acaba soando desnecessária ao conflito do personagem central. Tem cara de telefilme, e talvez se saísse melhor nesse formato.

 

                                                                     

O PRÍNCIPE DAS MARÉS (The Prince of Tides, EUA, 1991) * * 1/2

Dir. Barbra Streisand. Com: Nick Nolte, Barbra Streisand, Jason Gould, Blythe Danner, Kate Nelligan. 132 min. Drama. TV.

 

Não havia assistido a este filme antes por falta de um interesse maior mesmo. Há filmes que eu deliberadamente deixo o acaso, ou o destino, me mostrar. Nick Nolte está histérico (talvez por isso o tenham indicado ao Oscar) na pele de um ex-treinador de futebol sulista passando por problemas conjugais e abalado pela morte do irmão mais velho, com um péssimo relacionamento com a mãe, que precisa ir a Nova York quando sua irmã gêmea e escritora tenta cometer suicídio. O fato é que ele passa a ver a terapeuta da irmã, para a qual tem que contar os terríveis segredos que cercam sua família a fim de que a terapeuta (Streisand) possa compreender a psique abalada de sua cliente e com isso ajudá-la. Na verdade o grande problema de O Príncipe das Marés é nunca conseguir encontrar seu tom, talvez pelo fato da história misturar tantas questões ao mesmo tempo que Streisand não conseguiu conferir a ela uma identidade narrativa (algo que podemos conferir também em Espanlês, por exemplo). Era para ser sobre a dificuldade de crescer e superar os problemas dos pais, como deixa claro no início, mas logo que a questão motivadora da trama se resolve (como praxe, temos um evento traumático, bem pesado, por sinal) Streisand insiste em prolongar por demais o filme com um romance entre os dois personagens principais, o que termina soando como apenas uma tentativa dela reviver seus dias de glória como atriz e fechar o filme de maneira interessante. Mas nem isso consegue. Baseado no livro de Pat Conroy, o filme chegou a ser indicado a alguns Oscars (filme, roteiro adaptado, ator, atriz coadjuvante – Nelligan, fotografia, direção de arte e trilha sonora) no mesmo ano de O Silêncio dos Inocentes. Disputa injusta, hein?

 

                                                                      

ALGUNS FILMES QUE ASSISTI NOS ÚLTIMOS DIAS

 

INSTINTO SELVAGEM 2 (Basic Instict 2, EUA, 2006) * 1/2

Dir. Michael Caton-Jones. Com: Sharon Stone, David Morrissey, Charlotte Rampling, David Thewlis. 114 min. Suspense. Cinema.

Um quase noir, com diálogos bobos e lapidados, trama implausível e final absurdo. Ah, e nada de sexo desta vez!

 

AO MESTRE, COM CARINHO (To Sir, with Love, ING, 1967) * * * *

Dir. James Clavell. Com: Sidney Poitier, Suzy Kendall, Christian Roberts, Judy Geeson, Lulu. 105 min. Drama. DVD.

O grande Sidney Poitier brilha na pele de um professor negro que encara o desafio de lecionar em uma classe de jovens rebeldes. A sacada que ele tem é esquecer os livros e conquistar a empatia e o respeito dos alunos falando sobre a vida. Além da famosa canção-tema (executada em excesso, talvez), o filme transcende o tema com detalhes sutis que o tornam uma bela experiência sobre intolerância, preconceito e redescoberta. Tocante.

 

O CÓDIGO DA VINCI (The Da Vinci Code, EUA, 2006) * * 1/2

Dir. Ron Howard. Com: Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Jean Reno, Paul Bettany, Alfred Molina. 149 min. Suspense. Cinema.

Muita exposição de informações didáticas, esquecendo de desenvolver melhor os personagens e a trama polêmica e interessante. Não funciona como suspense de entretenimento, pois se leva a sério demais, chegando a ser cansativo (meia-hora a menos e quem sabe o filme resultasse melhor). O que funciona no livro não dá certo no filme. Tom Hanks parece apagado e desconfortável como Robert Langdon e o diretor Howard perdeu mesmo o jeito desde o Oscar por Uma Mente Brilhante, isso é fato e sem dúvida uma pena. Até buracos na história são deixados descaradamente. Nunca assisti a um filme com tantos flashbacks (o que torna a experiência ainda mais sacal), sem qualquer vestígio de criatividade artística. Enfim, O Código Da Vinci é a primeira grande decepção do ano!

 

                             

MAIS FILMES

 

HOLLIDAY INN – VÉSPERA DE NATAL (Holliday Inn., EUA, 1942) * * * *

Dir. Mark Sandrich. Com: Bing Crosby, Fred Astaire, Marjorie Reynolds, Virginia Dale, Walter Abel. 100 min. Musical. P&B. TV.

Foi idéia do grande músico Irving Berlin este delicioso musical sobre os feriados norte-americanos (a gente releva o patriotismo). Tem uma das canções mais lindas do cinema, White Christimas (vencedora do Oscar, claro), cantada por Bing Crosby e Marjorie Reynolds numa cena memorável. Fred Astaire está brilhante como um quase coadjuvante antagonista e os números musicais são magnificamente coreografados. Para os fãs do gênero, imperdível.

 

O MENINO DOS CABELOS VERDES (The Boy with Green Hair, EUA, 1948) * * * * 1/2

Dir. Joseph Losey. Com: Dean Stockwell, Pat O’Brien, Robert Ryan, Barbara Hale. 78 min. Drama. DVD.

Ao tomar conhecimento da morte dos pais na guerra, menino amanhece com os cabelos verdes, para a incompreensão de todos. Fábula de extrema sensibilidade e originalidade sobre intolerância e preconceito, mostrando com singuralidade como é ser diferente e procurar um sentido para isso. Enxuto e muito bem realizado, o filme ultrapassa o tema ao pregar uma mensagem contra a guerra. Lindo, com roteiro, direção e atuações irrepreensíveis. Uma pérola do cinema. 

 

                                                

A NOITE DO DEMÔNIO (Curse of the Demon, GB, 1957) * * * ½

Dir. Jacques Tourneur. Com: Dana Andrews, Peggy Cummins, Niall McGinnis, Maurice Denham. 83 min. Terror. P&B. TV.

 

Clássico do gênero sobre demônios e seitas demoníacas, que ficou famoso pelo diretor, Tourneur, ter baseado toda a atmosfera de tensão e medo no poder da sugestão, quase sendo um filme de abordagem inovadora. O problema foi que, a seu inteiro contragosto, o estúdio decidiu mostrar o monstro demoníaco sobre o qua